terça-feira, novembro 23, 2004

A subsistência da Escola depois do ano 2000...

Seguindo a proposta do senhor professor encontrei este texto sobre a subsistência da Escola. Embora longo, utiliza uma linguagem simples e aborda alguns temas que já abordámos nas aulas. Por fim, lança a questão: Não estaremos nós perante o desaparecimento da instituição escolar? e sugere algumas medidas para que tal não aconteça.
TEXTO 5
In Cosmopoulos, A – in Congrés International de recherche sur la Personne de l’enseignant, 5, Aveiro, 1988 – Être enseignant aujourd’hui: actes. Aveiro:Universidade: Departamento de Ciências da Educação, 1988. (Trad. Cró, M.L., 1992)



A subsistência da Escola depois do ano 2000 está associada ao Desenvolvimento da Pessoa do Educador (Professor) e sobretudo da sua qualidade Relacional



As pressões sociais exercidas desde sempre sobre a Escola têm sido grandes. Mas o que diferencia a pressão actual, exercida na Escola pe1as sociedades ocidentais de hoje, talvez deva ser procurado no facto de a nossa ser uma época de grandes mudanças técnicas e sociais que se processam a um ritmo alucinante...

O que diferencia as atitudes em relação à Escola da nossa época das procedentes... pode, em nossa opinião, ser objecto de uma análise a três níveis:

a)A clientela da Escola actual, isto é os jovens de hoje, que têm uma nova psicologia, já não têm escrúpulos morais, nem razões práticas para não se libertarem e de procurar fora dela recursos que satisfaçam as suas necessidades de formação. É por isso que a escola nos decénios que se seguem, limitar-se-á a ter um lugar marginal, a ser uma instituição estática e longínqua dos interesses da juventude, mesmo se o mundo à sua volta, um mundo cheio de vivacidade, se encontra em perpétua mudança.

Talvez que para a nossa geração a Escola representasse um valor... Um templo de sabedoria… mas hoje o que é que ela representa para os jovens do 2º milénio?

Pensamos que o sentimento geral é o de uma Escola ultrapassada, sem orientação, sem uma metodologia concreta, um lugar de vida que não tem uma identidade definida. A Escola vista por este prisma, só pode provocar sentimentos de perplexidade e de fadiga e muito frequentemente de angústia aos que aí vivem - professores e alunos.

É um lugar de trabalho, muitas vezes inútil, que é sentido sobretudo pelo aluno como um complemento estranho aos seus interesses e às suas necessidades de desenvolvimento e de cultura. A passividade e a não participação do aluno é status quo na Escola de hoje.

Desde a sua entrada no Ensino Primário as crianças aprendem a descodificar mensagens secretas transmitidas pela instituição escolar. Estas mensagens que têm influências nefastas nas suas vidas podem ser interpretadas da seguinte maneira: “Não vale a pena apresentarmo-nos tal como somos. E, por conseguinte, na nossa vida com os adultos, é preciso trazer máscaras para sobreviver.”

Cada professor, por seu lado, aprende a ter a mesma atitude em relação às questões escolares. São poucos os que não entram na rotina e evitam o marasmo. É preciso ter audácia, e dizer aos educadores (professores), que não é incompatível com a sua função de educador, o encontrar satisfação e desenvolver-se a si mesmo enquanto pessoa, auto realizar-se

b) Aqueles que por tradição mantinham a Escola no seu papel conformista já não têm afinal razão para o fazer, porque todos os dias tomam consciência de que a Escola está longe de ser considerada como a única fonte de conhecimento. Para além disso as suas expectativas em relação ao valor profissional do título académico caíram, agora, sobretudo, que a falta de emprego... provocou a inércia dos diplomas universitários. E no que diz respeito às expectativas parentais de outrora, em relação à educação da personalidade dos seus filhos, também eles já não têm quase nada a exigir à Escola. Este templo de esperança parental do passado, desabou minado pelos meios extra-escolares que difundem uma educação pluralista, invasora da família, da rua, da Escola. Novos mestres penetram na intimidade dos lares substituindo-se aos da Escola e da Família.

É por isso que a instituição escolar permanece narcisicamente solitária e imóvel num mundo em mudança acelerada, "optou" por ter um lugar marginal na sociedade actual. O mundo de hoje tomado pelo valor do "aqui e agora" é invadido pelos novos ideais de consumo e de prosperidade, concede à escola o direito de morrer em paz, graças apenas à antiga veneração pelo que a Instituição representou pela sua cultura.

A formação desta nova atitude social em face da Escola, é também, em grande parte, obra da revolução social originada pelo uso das conquistas tecnológicas e especialmente electrónicas. O progresso técnico mudou a nossa mentalidade, a nossa psicologia e a nossa filosofia do Homem e do Mundo a qual constitui o substrato da nossa vida social e pedagógica... As mudanças fundamentais que se operam todos os dias na sociedade actual, ameaçam fortemente a Escola. Esta, ou tem de mudar completamente (e não apenas modernizar-se), ou pôr-se a par para permitir outros tipos e padrões de formação. A utilização da informática no domínio da Formação e da Informação (que será generalizada antes do ano 2000), derrubou o monopólio da distribuição do conhecimento pela Escola. Os próximos decénios acabarão também por roubar à Escola a sua função de distribuidora do saber e abalarão fortemente a função do Professor e do Aluno.

Não estaremos nós perante o desaparecimento da instituição Escola?

- Torna-se cada dia mais difícil a escola pretender ser uma Escola Humanizadora, uma Escola capaz da formação do Homem na sua totalidade.

- A Escola de hoje não se pode orgulhar da sua produtividade, pelo menos em função das prerrogativas económicas actuais.

- É impossível também afirmar que a Escola de hoje corresponde às necessidades modernas, quer dos alunos, quer da sociedade a que pertencem. As opções da Instituição Escolar relativamente ao currículo permanecem, por um lado, quase imóveis numa sociedade, em rápida transformação. E por outro lado a metodologia praticada é quase sadomasoquista... no momento em que a sua clientela é invadida pela atracção de formadores extra-escolares. É aqui, especialmente que a intervenção das possibilidades formativas da informática fazem explodir a falência da escola actual. Mesmo a escola mais organizada, que quisesse apenas tirar proveito do progresso electrónico, sem mudar a sua filosofia pedagógica e a sua metodologia, não poderia concorrer com a força formativa dos meios electrónicos que são superiores aos outros, sendo mais massivos, mais rápidos, mais atraentes e mais eficazes.

- À entrada do 3º milénio, durante o qual outros tipos de factores de formação substituirão a Escola, será instaurado um verdadeiro culto de saber técnico, na medida em que os saberes técnicos forem, compreendidos no sentido estrito, conduzirão o homem a privação de toda a riqueza sensível ou emocional, a subestimar a sua humanidade e a diminuir a sua pessoa, a empobrecer as suas ligações com a natureza e com os outros. A humanidade, no começo do novo período arrisca-se a cair nas mãos dos tecnocratas compensando-se assim com bens de consumo. É por conseguinte, quase certo que no sistema escolar primarão sobre os outros, os fins práticos, utilitários, a que falta uma proposta filosoficamente mais sólida, e por isso, aqueles fins, mostrar-se-ão, talvez perigosos para o futuro da Civilização Humana.

E é ao sair deste período que a era da Escola livre, a era da Pessoa para desabrochar, dado que o homem pode tirar grandes lições através da sua própria experiência...

Depois de ter experimentado uma nova falência depois de ter sobrevivido às nefastas consequências do servilismo dos sistemas de formação com fins diferentes do que o do desenvolvimento da pessoa, o homem estará enfim pronto a utilizar a tecnologia como meio do seu desenvolvimento e não como um fim em si. Mas isto levará tempo, porque se trata de uma tomada de consciência geral e não só pedagógica.

A Europa de hoje depois de ter sofrido Chernobile sentiu profundamente a adequação das palavras de Péguy: nós somos obrigados a compreender que, ou seremos salvos todos em conjunto, ou pereceremos todos, também, em conjunto.

Mas o renascimento e a preponderância do valor da pessoa humana, a seguir a terríveis experiências da humanidade, e a sua realização através das políticas convenientes dos governos não será feita senão se nós todos, os cientistas e os práticos das ciências, ditas humanas, não participarmos nesse renascentismo de forma inteligente, se todos nós não reagirmos contra a possibilidade da desumanização da vida. (Isto é absolutamente necessário, pois teremos de contar com as reacções daqueles que concebem os seus interesses, quer económicos, quer políticos por forma a contrariar uma tal preponderância da pessoa humana.) Será que poderemos um dia ver-nos todos unidos numa grande contestação - filósofos, pedagogos, psicólogos, sociólogos... com a finalidade de sensibilizar as pessoas para a promoção de uma Educação por e conforme a Pessoa Humana? ... (Trata-se de apresentar ao mundo o seu humanismo de maneira convincente... deveremos repetir os erros dos humanistas outrora, que para além das razões que tinham não foram seguidos pelo povo que os considerou “irrealistas". Nesta perspectiva, o povo sentir-se-á mais seguro seguindo os tecnocratas que utilizam uma linguagem mais convincente que os cientistas cheios de boas intenções, mas em contradição com os factos da vida quotidiana.) Se estas experiências do passado tiverem algum valor de guia neste procedimento em relação à educação então é possível... a instauração de uma Escola equilibradora, duma Escola que partilhe com outros factores sociais, a responsabilidade da sobrevivência da humanidade. Esta Escola terá como função ajudar os jovens a tornar-se pessoas livres, fortes e equilibradas...

(Num mundo em contínua mudança, onde irão viver as gerações vindouras, que terão de ultrapassar também dificuldades de adaptação, os jovens têm de demonstrar saúde física e psíquica, equilíbrio e maturidade psicológicas)... E relativamente às necessidades do século XXI parece necessário também que a Escola trate nas suas disciplinas: a confiança em si, a serenidade da alma, a flexibilidade do espírito, a imaginação criadora, a iniciativa pessoal a par ela cultura, da consciência social e do espírito de equipa. É também indispensável cultivar nos jovens o espírito crítico e ajudá-los a construiu os seus próprios valores... Enfim esta Escola que funcionará como uma comunidade educativa de alunos e professores, assentará toda a sua obra na criação de relações autênticas e puramente democráticas entre os membros da Escola-Comunidade.

O professor desta Escola é uma pessoa adulta, amadurecida e equilibrada, estimada e reconhecida pelos seus alunos como seu companheiro e facilitador da realização da sua própria obra, que é a da aprendizagem e do desenvolvimento pessoal.

Tudo o que grandes filósofos da Educação formularam sobre o papel de uma tal Escola, tudo o que as inovações pedagógicas expressaram através da sua prática... deverá ser agora em nossa opinião, o que a Escola tem de ter em conta, a fim de poder sobreviver.

Sobretudo, agora, que o aluno pode satisfazer as suas necessidades de instrução fora da Escola, ou dentro desta mas com a condição de uma mudança antecipada... o professor não poderá mais esconder a sua personalidade sob a máscara de um papel a desempenhar... O Papel de facilitador e de técnico, que está humildemente à disposição dos alunos, será o fruto de uma personalidade amadurecida, equilibrada, livre e sociável... "Não é incompatível para o professor ser facilitador e ao mesmo tempo guia para os alunos. É uma questão difícil de resolver na prática, pois supõe uma "catharsis"e um comportamento pedagógico congruente com as suas atitudes enquanto Pessoa... " O novo campo de batalha será então o campo das relações interpessoais educador-educando...

Mesmo que todos aqueles que se chamam professores... tivessem recebido uma formação pedagógica julgada conveniente antes do início das suas actividades, o que não é infelizmente a maior parte dos casos, essa formação seria completamente insuficiente. Na Escola depois do ano 2000 serão as qualidades reais da personalidade do professor que vão contar,... sobretudo as qualidades humanas da sua pessoa, e antes de mais a facilidade e a autenticidade pedagógica do seu dinamismo relacional. (Podemos então imaginar que mudanças devem ser efectuadas num futuro próximo, quanto à concepção e conteúdos da formação dos professores sobretudo os métodos, utilizados.)

Numa pedagogia relacional o resultado educativo não é mais do que o fruto de uma relação imediata que o sujeito trava com os valores que este, enquanto pessoa, atribui a qualquer objectivo pedagógico. Não existe assim outro tipo e método de aprender senão o da auto-aprendizagem por si mesmo... que Platão definia como o movimento e a operação criadora da alma dos estudantes... É o mesmo que defendem Brunner e Gagnè e que Rogers expressava em tom humilde mas provocante. “Tenho finalmente a impressão que a única aprendizagem que influência verdadeiramente o comportamento do indivíduo é aquela que ele descobre por si mesmo ".

(O conhecimento procurado desta forma pelo aluno, e, que graças ao seu “metabolismo psicológico", se transforma em matéria orgânica do desenvolvimento... é a única que tem, sentido para o indivíduo.)

O desenvolvimento da pessoa do Professor, não nos parece então, depois do que acabamos de afirmar, como uma questão de luxo mas com uma condição “sine qua non”, da realização da Escola do 3.º milénio. Por conseguinte, toda a metodologia que propicie o desenvolvimento da qualidade relacional do professor deve ser oficialmente utilizada pelas Universidades ou pelas outras Escolas, encarregadas da formação dos formadores.

(Este aspecto novo e urgente da formação dos professores, deverá ser confiada a
educadores... que acreditem... na eficácia do processo educativo e desejam acompanhar os jovens a realizar o seu desenvolvimento.) Esta formação não se distinguirá apenas pela amplitude e pela metodologia utilizada, mas sobretudo pela profundidade da mudança. Porque a pressão do inconsciente do aluno, é por vezes tal que não é possível reeducar este último, sem uma acção paralela sobre o educador... ! E a propósito sublinhamos o que Rogers escreveu: "Acho útil à formação dum formador a experiência de uma relação terapêutica - que não é necessariamente uma psicanálise - mas que seja um exame das suas projecções e dos fenómenos da sua relação com o outro... "




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