quinta-feira, dezembro 09, 2004

De que forma a escola onde eu trabalho está atenta a experiências culturais diferentes

Começo por dizer que na escola onde trabalho (Ensino superior público - Formação de professores) não há grandes diferenças a nível da proveniência cultural dos alunos. São um grupo bastante homogéneo de jovens, muito próximos em termos de idade, n.s.e., quase todos vindos dos arredores da Cidade.
De facto, penso que talvez esta não seja a melhor escola para fazer este tipo de investigação pois, sendo uma escola de ensino superior, implica que os alunos tenham completado doze anos de estudo antes de ingressarem nessa escola, o que acaba por funcionar como um processo de selecção natural..
Contudo, numa conversa com uma colega acerca deste assunto descobri que existem alguns alunos com uma base cultural diferente: alunos que estão no curso de português/francês, filhos de emigrantes, que nasceram e passaram parte da sua vida em França.
Não é fácil precisar quantos são estes alunos, pois este tipo de informação não está nos registos. Difícil foi também localizá-los.. No entanto, variando um pouco com os anos, penso que serão entre 20 a 30% dos matriculados nesse curso.

Resolvi entrevistar alunos nesta situação para tentar averiguar de que forma as suas diferenças foram tidas em conta nas escolas por onde foram passando. (tenho as entrevistas gravadas se depois quiserem ouvir).
Entrevistei então duas alunas do 3º ano. Em função do caso específico em análise as questões centraram-se sobretudo nos problemas causados pela diferença da língua.
O percurso das alunas era semelhante. Nasceram em França e aí iniciaram a escolaridade (uma até aos 10 anos e outra até aos 12). Frequentaram escolas francesas, em turmas de franceses.
Não foi considerado o facto de serem portuguesas: Os pais foram aconselhados a arranjarem um professor de apoio, fora das aulas. Uma das alunas disse que se sentia excluída pelos colegas por ser portuguesa. Nada foi feito que tivesse em atenção as suas diferenças culturais.
Quando voltaram para Portugal ingressaram na escola “em português”. Mais uma vez não houve atenção para as suas origens. Tiveram aulas de A.P.A. que são as aulas que se dão aos meninos com dificuldades de aprendizagem, que têm insucesso escolar…
Importa dizer que nas escolas que frequentaram, tanto em França como em Portugal, quase não havia colegas na mesma situação.
Mas e na faculdade, onde há vários casos destes?
Também nada se fêz por estas jovens..
Nada está organizado neste sentido, nem no currículo explícito nem fora dele.
Dizem as alunas “somos colocadas na turma e somos iguais aos outros.”
As alunas sentem dificuldades a nível do português e não têm qualquer apoio para as superarem. Uma delas disse-me que dá muitos erros ortográficos. Talvez por sentirem que os professores não se preocupam com elas (isto foi dito na entrevista) o seu objectivo é apenas ter 10 valores…
Estas alunas são futuras professoras de português!
Sentem-se prejudicadas na avaliação pois os professores de português não se preocupam com elas. Os de francês são mais exigentes em virtude do seu passado.
Parece que a escola não tem em atenção as diferenças culturais destas estudantes, nem esta onde estão agora, nem as outras por onde passaram no seu percurso; nem em Portugal, nem em França.
Sara Cardoso
9 de Dezembro de 2004

P.S. omiti deliberadamente o nome da escola onde trabalho pois não pedi autorização para efectuar esta breve pesquisa. Seria um processo moroso que provavelmente terminaria numa resposta negativa. Agradeço a quem eventualmente fizer comentários que também não nomeie a escola em questão.

Sem comentários: