sexta-feira, outubro 07, 2005

Breve reflexão sobre “Cultura é de facto uma prisão…”

As primeiras palavras “Cultura é de facto uma prisão…” da expressão de Edward T. Hall sugeriram-me imediatamente um episódio da minha vida. Um episódio que se prolongou por
cerca de sete anos, e que gostaria de partilhar.

Tinha acabado de começar o novo ano lectivo 1981-1982, o meu segundo ano escolar. Vivia juntamente com a minha família em Moscovo, na ex-U.R.S.S.. Das férias de Verão (em Portugal), o que ficou realmente registado em mim, foi o facto de ter furado as minhas orelhas. Uns brinquinhos de ouro que eram orgulho de qualquer rapariga da mesma idade. Seriam mesmo?
Entrei na escola como todos os outros alunos. Era mais um dia de aulas, que começava, como habitualmente, com o cumprimentar da nossa Directora da escola. Mas desta vez, notei uma expressão diferente na Directora, não muito usual, uma expressão abstracta de repulsa e de indignação. Não sabia qual o motivo, mas não poderia ser comigo, certamente. Mas não, eu fui a causa dessa expressão perplexa. A Directora dirigiu-me a palavra dizendo-me que eu tinha que tirar os brincos, e que ninguém na escola podia entrar com qualquer que fosse o tipo de “enfeite”. Agora era a minha vez de ficar perplexa. Não sabia o que fazer, nem entendia o porquê da situação. Percebi pelas suas palavras que todos os alunos deveriam ser iguais, daí que usássemos uniformes, não demonstrando assim a nossa condição social e económica. Obviamente que também eu era da opinião de igualdade de direitos; mas eu também queria usar os meus brincos; queria continuar a fazer parte da minha cultura portuguesa.
Claro que a minha mãe, como encarregada de educação, foi imediatamente chamada à escola para esclarecer o assunto. Um assunto que não tinha naquele momento solução. Como portuguesa tinha o meu direito de o continuar a ser; mas como emigrante noutro país, também tinha que me sujeitar a uma outra cultura. Assim, todos os dias saía de casa com os brincos postos como uma portuguesa. Todos os dias chegava à escola e era importunada (verbalmente e/ou com olhares de toda a comunidade escolar). Algumas vezes tirava os brincos à entrada da escola e colocava-os à saída (ou ocasionalmente punha-os para as fotografias de turma), e transformava-me em mais uma aluna "russa". Outras vezes usava a minha cultura portuguesa durante todo o dia.

Os anos foram passando, sempre com os mesmos jogos teatrais (afinal de contas, eu é que sofria as represálias quer fossem da escola, quer fossem familiares), e o que é certo é que por volta do ano lectivo de 1987-1988, eu já não era a única aluna a desafiar uma cultura, um “hábito”. Quem poderia dizer que o meu acto inconsciente de representação de uma cultura tinha iniciado uma pequena “revolução” numa escola, e que começava a acompanhar, como é óbvio, toda a mudança política da altura (Perestroika).

De facto, uma cultura por conter “uma maneira de vida” faz com que todos os indivíduos inseridos nela se comportem “como esperado”, ou seja, não questionando, mas vivendo dentro de um padrão pré-estabelecido. Como diz um provérbio português “felizes os analfabetos porque não conhecem o mundo em que vivem”. Estes, acomodam-se confortavelmente com o que têm e nem querem mais; aliás, como costumam dizer, “já tudo foi inventado” ou então “até eu fazia isto”. Não pensam, nem agem porque aceitam tudo de mãos abertas, mas sempre se queixando ao seu umbigo “que podia ser pior”.
Uma norma de vida que aprisiona só quem quer. Porque o nosso pensamento é a nossa liberdade; é a nossa chave que abre todas as portas. O questionar-se equivale a ter curiosidade e espreitar pela fechadura. A vontade de “saber mais” é a nossa liberdade, aquilo que distingue os seres humanos activos dos passivos. A vontade “do mais” que trabalha continuamente a(s) cultura(s), a(s) sociedade(s). Porque sem cultura também não somos ninguém. Ela é a nossa base de tudo aquilo que já construímos e que fomos melhorando (esperamos nós); é a escada que continua a subir e que nos sustenta.

Sem comentários: