segunda-feira, outubro 31, 2005

A cultura e as Suas Relações Com o Mundo
A Habilidade de Conviver e Compreender Outras Culturas – Reflexos no Currículo

Da reflexão realizada na aula resultam as ideias que a seguir apresentamos. A partilha de várias experiências pessoais, levou-nos à elaboração de uma lista de factores que acreditamos constituir obstáculos para a integração/inclusão de pessoas que não pertencem à cultura dominante, nomeadamente num país diferente, e que podem dar origem ao “choque de culturas”.

- características físicas (cor da pele, etc.);
- sentimento de não pertencer à cultura dominante;
- posição de etnocentrismo e incapacidade de estabelecer relações de empatia (de ambas as partes);
- distância física das referências de identidade cultural:
a) língua;
b) clima;
c) religião;
d) família, grupo de amigos, etc.;
e) modo de vestir e modelos comportamentos socialmente aceites;
f) forma de ocupar os tempos livres;
g) diferença nos valores;
h) discrepâncias sócio-económicas;
i) alimentação/gastronomia;
j) etc..

Para além destes, outros factores, que advêm de ambas as partes (minorias e cultura dominante), poderiam ser referidos. Contudo, interessa-nos referir que, no âmbito escolar, o impacto negativo de todos esses factores pode ser minimizado e mesmo eliminado se o currículo assim o proporcionar… o que a longo prazo se fará sentir na sociedade em geral…

Daí a nossa importância e responsabilidade como agentes educativos, proporcionando actividades promotoras de trocas de saberes e experiências culturais e valorizando cada diferença como uma mais valia no processo educativo!

Ana Oliveira / Susana Filipe / Rosa Gondar / Olga Vassilieva

8 comentários:

filomena disse...

Ana relativamente ao "choque entre culturas" que referes neste post, e no que diz respeito à cor da pele, a criança questiona-se segundo Vigotsky (1984): - "De que preciso eu para ser olhada e reconhecida?"
É precisamente neste momento que a criança poderá dar início ao processo de "embranquecimento" e auto-exclusão de suas características individuais e étnicas,dando-se o desvirtuamento da sua identidade. Da-se um silenciamento do preconceito por parte da criança e cidadãos ao longo da vida.´
Penso que é urgente pensarmos nisto:
Gusmão (1999)
"A imagem do negro é mutilada de atribuições positivas e representada como um mundo triste, marcado pela violência e pela distância real e simbólica entre brancos/negros".

Segundo Romão (2001), o processo educativo pode ser uma via de acesso ao resgate da auto-estima, da autonomia a das imagens distorcidas.Sendo a escola o ponto de encontro e de embate das diferenças étnicas,pode ser instrumento eficaz para diminuir e prevenir o processo de exclusão social.

Temos muito que reflectir.

Filomena Ramos

filomena disse...

Faltou mais esta referência.

Importância da necessidade da criança ser olhada e reconhecida. Segundo Oliveira (1994) é pelo olhar do outro que nos constituímos como sujeito. É a qualidade desse olhar que contribui para o grau de auto-estima da criança.

Filomena Ramos

AnaOliveira disse...

Filomena, estas referências são excelentes na fundamentação e suporte da criação de estratégias educativas para evitar o "choque entre culturas". A enumeração de obstáculos que fizemos no trabalho de grupo, corresponde àquilo que, na altura, reflectimos como sendo as principais causas da exclusão social e étnica...

rosagondar disse...

Relato com brevidade o modo como em 1983 me encontrei em Moscovo a frequentar o Conservatório Superior Tchaikovsky, deparando-me com todo um ambiente sócio-cultural completamente diferente daquele em que até então tinha vivido: a começar pelas contrastantes características climáticas, passando pelas fisionomias diversificadas, os cheiros estranhos nos refeitórios, a dificuldade de identificar um simples cartaz na rua, até ao impacto causado pelo elevadíssimo nível musical daquele Conservatório onde me propunha estudar.
Curiosamente foi, por um lado, através da convergência de interesses e da partilha de objectivos que encontrei conforto na diversidade de nacionalidades aí existentes (quer de pessoas do próprio país, quer de outros, com que mantenho até hoje fortes relações de amizade!) e, por outro lado, através da assimilação relativamente rápida da língua e de uma enorme curiosidade que me levou superar estes desníveis, até ao ponto de, passados nove anos, me sentir completamente em casa.

vassileva disse...

Contarei resumidamente a minha história: cheguei a Portugal em 1994, sem conhecimentos da língua portuguesa. Encontrei um pequeno e simpático país,
Onde me adaptei a tudo de um modo muito rápido, encontrando da parte das pessoas muita abertura e vontade de ajudar. Dois meses mais tarde já com alguns conhecimentos da língua, comecei a minha actividade como professora de Piano no Conservatório Calouste Gulbenkian (a linguagem musical permite estas aventuras!). E foi através do contacto com os meus alunos e colegas, no ambiente de trabalho e de convivência, que superei as principais dificuldades. Estou de acordo com J. Dewey – “ a escola é vida”!
Hoje sou mãe de um pequeno Português que, com as exigências do dia a dia, é o meu grande professor.

AntonioPacheco disse...

Vassileva: deixa-me felicitar-te pela extraordinária frase com que terminas o teu comentário. Ela é carregada de emoção, sentimento e vida a todos os níveis: «Hoje sou mãe de um pequeno Português que, com as exigências do dia a dia, é o meu grande professor».É bom,é muito bom para todos nós ,que todos os alunos sejam também nossos professores!

AnaOliveira disse...

Estou de acordo António, esta frase (as emoções que envolve) é comovente... Remeteu-me para um episódio, igualmente comovente, do filme do Projecto Intercultural em escolas que visionámos em Multiculturalidade... no qual uma mãe e filha africanas, imigrantes em Portugal falavam acerca da sua adaptação, contando que ambas têm aulas em níveis diferentes... sendo a filha, com maior facilidade de aprendizagem, que apoia a mãe no estudo e nos trabalhos de casa...
Isto dá pistas para "apostar" na infância e juventude, pois uma maior abertura, menor formação de esterótipos e maior facilidade de estabelecer relações e "aprender a aprender" constituem um excelente ponto de partida para uma formação baseada na vivência de valores universais de convivência inter-geracional e inter-cultural.

Margarida disse...

Para colmatar esta reflexão:
1º Para a criança tudo é possível, ela não tem nem percebe o significado de obstáculos. Logo, não tem limites a sua imaginação.
2º O ser humano existe porque consegue adaptar-se a qualquer que seja a situação. Para tal basta-lhe o instinto de sobrevivência e a vontade de mudar.
Em conclusão: porque não continuarmos a ser crianças, adaptando-nos ao mundo, criando-o, modificando-o sem limites? Se nós modificamo-nos para nos inserirmos numa dada sociedade/cultura, também já estamos a modificá-la. Ambas as partes ficam a ganhar. A ganhar liberdade.