domingo, outubro 16, 2005

Cultura e Criatividade são desenvolvimento

"Uma sociedade tolerante, aberta à diversidade, seja na música, nas artes, na tecnologia ou na economia, atrai os individuos com potencial criativo capaz de arriscar novas ideias" Richard Florida

Acerca do artigo que saiu no jornal "Público" de 2005-10-16, escrito por Vitor Belanciano, referente ao economista Richard Florida que refere " as ideias, a criatividade, a cultura são essênciais para o desenvolvimento económico. Em Portugal, a cultura é um problema, nunca é pensada como solução".

Estou inteiramente de acordo, devido ao facto da cultura em Portugal se encontrar dissociada das realidades, socioeconómicas e sociológicas.
Ainda não conseguimos ultrapassar uma cultura rica e secular, com inúmeros preconceitos de ordem social e moral, que pesam no desenvolvimento cultural e lhe impedem a sua dinamização, diversificação e abertura. Os pequenos passos são, isso mesmo, pequenos e são fruto de uma abertura provocada pelos "média", quando nos confrontam com o espaço global onde nos inserimos social, económica e politicamente.
Embora a nossa sociedade seja fruto do entrechoque, ao longo dos séculos, de inúmeras culturas, a "tolerância" tem feito pouco parte dela, ou seja, sendo esta um veículo de desenvolvimento devido há multiculturalidade e conceitos sociais diversificados, raramente o foi aproveitado para o desenvolvimento da nossa cultura, e daí a perda de dinanismo e evolução. A causa é provocada pelo pensamento de perda de privilégios, de uma parte dominante, o que provoca o adiamento de reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento da sociedade, onde nos encontramos inseridos.
Como Cultura é Dinamismo (se não o fosse morria), não se compreende a falta de suficiente abertura, para que todo o sistema educacional e currícular possa ser adaptado ao desenvolvimento.
Quem detém o poder (político/ económico), tem como obrigação a implementação de políticas educacionais que activem não só a sensibilidade criativa, como também a observação e o poder crítico. Face a este conceito, o poder deve dotar a área cultural de meios que lhe permitam a evolução e o desenvolvimento.
Em Portugal a cultura tem sido encarada como um problema de ordem secundária e não é olhada como unidade intrinseca ao desenvolvimento.

Alexandra Covas

9 comentários:

AnaOliveira disse...

Não li o artigo, mas concordo com a importância da criatividade e cultura para o desenvolvimento económico, aliás para o desenvolvimento em geral (pessoal, social, científico, etc.)...
Quanto à cultura, embora infelizmente todos os dias ouçamos falar do encerramento de museus, companhias de bailado, etc., há uma coisa que me tem agradado ver: o interesse e participação no crescente número de manifestações culturais de diferentes povos, em espectáculos, concertos, exposições... a valorização da sua música, do seu artesanato, das suas tradições por exemplo, do culto do corpo... Enfim, mais do que nunca, as pessoas procuram, experimentam e fazem opções de vida baseadas em ideais e características culturais que não as suas de origem... Procuram uma alternativa na multiculturalidade. Uns de forma consciente e (in)formada, outros de forma inconsciente - "É a moda!"- adoptam gostos e valores de outras culturas. A música (música étnica, afro, latina, etc)... os ambientes das casas (com motivos afro ou orientais, etc.)... a aprendizagem da dança (oriental, samba, africana, etc.) e artes marciais... Parece-me que existe abertura por parte da população...
A política não é um dos meus grandes interesses! ... Naturalmente que muita coisa poderia ser diferente... no entanto... se nós consultarmos a legislação existente em Educação está lá tudo: na lei de Bases, nas Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar... enfim... todos os documentos privilegiam a formação global das crianças (que inclui a formação de cidadãos com espírito criativo e crítico)... Então, como está a escola a pôr essas "linhas condutoras" em prática? Uma formação adequada não iria, também, aumentar o interesse pela cultura e "construir/formar" novos espectadores, novos "consumidores" de Arte?!... Não nos podemos refugiar sempre na ineficácia do poder político, mas encontrar estratégias para superar as dificuldades (financeiras e outras) e promover a mudança...

antónio rui disse...

...seguindo o raciocínio de Richard Florida acerca da tolerância que aqui é apresentado neste post, atrevo-me a rematar com Karl Popper
“Se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o poder dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e com eles a tolerância.”

Margarida disse...

Parece-me que em Portugal nem se encara que existe o "problema da cultura". Será que o portugues sabe o que é cultura realmente, ou pensa que a nossa cultura se resume unicamente ao bacalhau, vinho, fado e futebol? O portugues ainda não entendeu que a nossa educação da cultura é aquilo que nos diferencia das restantes culturas, bem como aquilo que nos impulsiona a querer cada vez mais melhorar a qualidade de vida. Também sabemos desde há muito (talvez desde sempre) que não interessa nada que as pessoas pensem; é necessário que as pessoas façam o que lhes mandam sem se perguntarem porquê (atenção que não partilho esta opinião). O poder tanto pode ser da Igreja como do Estado (e aqui penso que continua indissociável, mesmo hoje em dia) que o propósito é sempre o mesmo: submissão com "óculos de Penafiel". Se as pessoas não forem preparadas para pensar por si, se não estão preparadas para a discussão crítica de ideias, um país não pode enfrentar os problemas normais e por isso não evolui. Se pensamos que tudo já está feito (e especialmente só lá fora), limitámo-nos a ficar à espera de uma solução que caia do céu. Mas a solução está na nossa criatividade. É a criatividade que nos muda o mundo.
Em contextos de crise, a cultura nunca é considerada como uma necessidade básica, mas como uma "birra" de uma minoria. Sempre que haja necessidade de cortes orçamentais, estes são direccionados para a educação e cultura em geral (tal como vemos pelo recente encerramento de uma companhia de teatro do Porto e uma companhia de bailado de Lisboa). Os artistas na maioria das vezes ou são reconhecidos no estrangeiro inicialmente e só depois é que têm acesso a um lugar por cá (quando já é tarde, e por isso, o artista sentindo-se traído não volta, vingando-se das posturas iniciais), ou pertencem a um lobby estreito, que normalmente é bastante restrito às novas entradas. Assim sendo, como impulsionar, como mostrar novas formas de arte/cultura se só se aceita o que já está normalizado? Não faltam portugueses impulsionadores de cultura; falta-nos a compreensão de que a cultura é aquilo que de melhor podemos ter; falta-nos a comprensão de que o pensamento é útil. Tudo depende da vontade; da acção e não da reacção.
E para terminar este comentário escrevo duas frases. A primeira penso que é da autoria de Jean Paul Sartre (se estiver enganada, corrijo-o prontamente): "Não existem problemas. Só existem soluções". A segunda é: “Os homens normais não sabem que tudo é possível.” (Rousset, D.).

Varela de Freitas disse...

O meu papel é naturalmente um papel de moderador (disse-o na passada sexta-feira). Por isso devo intervir neste ponto para dizer que a iniciativa da Alexandra foi excelente e que o diálogo (Ana, Rui, Margarida) começou. E começou muito bem, porque introduz claramente o terceiro tópico da nossa UC (unidade curricular), que versa sobre "A cultura e as suas relações com o mundo; a habilidade de conviver e compreender outras culturas – reflexos no currículo".
Talvez ainda de Orlando, onde me encontro, vos envie os textos indutores da discussão, mas para já, convido todos os que quiserem dar mais uma achega à discussão para reflectirem e entraram no diálogo. Deixo uma interrogação: O problema da cultura portuguesa tem muito ou pouco a ver com financiamento do Estado? (Isto não se confunde com política, mas tem contornos de política - no sentido de gestão da coisas pública; e não podemos evitá-lo). Bom trabalho!

antónio rui disse...

Para um funcionamento democrático do conhecimento e uma saudável competitividade dentro da cidadania e entre várias cidadanias.

O poder deixava de pertencer só a instituições e aos livros das estantes, mas sim ser mais uma característica do homem, tal como ter um braço, uma perna ou um dedo.
O conhecimento tem o poder de se encontrar sempre democraticamente aberto, mas por incasualidade não é comum a toda a gente.
E como é evidente o financiamento do estado À cultura, ao ensino,
à propagação do conhecimento é desde que me conheço um dos factores de rotura na partilha de conhecimentos.
Porém, e infelizmente não é o mais grave, pois há quem lide directamente com este tipo de propagação e não faz por isso, quer por desmotivação quer por comodidade tanto POR Exemplo por pais e professores.
por isso apela-se;
A utilização do conhecimento não o degrada nem o rompe, apenas o faz passar por mutações às quais a criatividade esta aliadamente pegada e o torna numa fonte a beber.

AnaOliveira disse...

Este comentário corresponde a um "pensar alto" ou neste caso "um pensar escrito"... que nasce de alguns minutos de reflexão estimulada pela interrogação do Professor Varela...

A resposta é que tem muito a ver... e que não tem muito a ver... com financiamento do estado...

A preservação e manutenção de muitas tradições e instituições com esses propósitos, envolvem, sem dúvida, financiamentos... Do Estado ou não! Veja-se o exemplo das Festas de Campo Maior, entre outras, altamente patrocinadas por empresas, nomeadamente os Cafés Delta...

Em contexto educativo há aspectos culturais que não deixam de existir por falta de financiamento, mas sim por falta de vontade... não só política, mas dos intervenientes directos com os alunos...

No que diz respeito aos valores e atitudes da cultura portuguesa ou outra... não estão directamente dependentes de financiamento... Vejamos os países africanos... com tanta miséria e com uma identidade tão própria...

A competência cultural é fundamental! No entanto, tentamos tanto que os alunos conheçam, experimentem e respeitem as outras culturas sem, muitas vezes, os "situar" e permitir vivenciar a sua própria cultura, promovendo a construção da sua identidade...

Sem entrar nos "contornos da política", penso que de facto há muita dificuldade em arranjar apoio para muitas iniciativas culturais, mas há outras possibilidades, não menos importantes que não carecem de financiamento e que, por vezes, são subestimadas...

Delfim Peixoto disse...

Concordo com a frase " Uma Sociedade........capaz de arriscar novas ideias".Assim sendo, aproveitando a questão levantada pelo Professor Varela de Freitas, " O problema da cultura portuguesa tem muito ou pouco a ver com financiamento do Estado? " sinto-me impelido a responder que tem "alguma" coisa a ver. Reparem: o Estado muitas vezes patrocina eventos culturais caríssimos, que a nível musical, Pintura, Teatro, Conferências e quando vamos a contar o número de espectadores,vemos " claramente visto" que esse investimento não pode dar lucro económico ou intelectual pois raramente público adere. Acho que o papel do Estado devrá ser o de defender aquelas actividades culturais que per si não são autosuficientes.
O Estado, em primeiro lugar deve investir na educação do Público, oferecendo Conhecimento e Literacia. Acho ser esse o caminho mais correcto. Sem haver uma cultura de protecção do nosso património, intrínseca e natural do povo português, não resultará nada que seja eminentemente natural.
O " eterno subsídio " provoca ( pode provocar) uma ruptura do " apetite pessoal".
Uma grande parte dos concertos em que participei foram pagos por empresas particulares, ao abrigo da Lei do Mecenato.
Óbviamente que concordo co a ideia de que ao estado cabe a função de estimular os agentes econõmicos para este apoio à Cultura e até porque não eles próprios se constituirem como agentes de difusão e defesa da Cultura.
Levanto só esta questão: será que o estado proporcionou a esses agentes, durante a sua vida escolar e cívica hábitos de Cultura?
O Estado deve educar o Povo para atingir um elevado grau de competência cultural; A Sociedade deve ter nos seus hábitos a procura de patrocinar os agentes culturais.

Margarida disse...

Realmente trata-se de uma questão um pouco melindrosa. Nem sempre podemos culpar o Estado por não se encarregar em estimular o desenvolvimento da cultura (criando propostas de concurso e por vezes atribuíndo prémios financeiros); mas também nem sempre podemos culpar os agentes culturais (quer sejam artistas, professores e etc.) por não conseguirem atingir o seu público. Não se trata de procurar as culpas, porque todos têm o seu quinhão de culpa. Tratar-se-á de uma preguiça mental e geral? O Estado pensa que não patrocinando todos os eventos poupará certamente bastante dinheiro, e escolherá certamente aqueles que achar mais convenientes. Todos nós conhecemos casos que ficam nas gavetas à espera que alguem se lembre deles. O mecenato, age também de igual modo (parece-me); e se faz algum tipo de financiamento, penso que tem mais a ver com o aumento de prestígio que poderá ter face às outras instituições. Todos competem por ter uma colecção de arte maior, por exemplo, chamando a atenção dos coleccionadores mundiais. Casos há que contribuíram realmente para a riqueza cultural de um povo (tal como Calouste Sarkis Gulbenkian). É claro que não podemos obrigar ninguem a dar nada; mas tendo por facto incontornável que também não ficamos por cá eternamente, a partilha pode ser um modo de distinção entre as pessoas. E cultura não pode ser exclusivamente de ninguem; a partir do momento em que existe, passa automaticamente a ser de todos (por muito que se queira fecha-lá no seu cofre). Não partilhar é que é um crime, é um empobrecimento de todos os indivíduos.
Os agentes culturais não vivem exclusivamente de ar; também precisam do seu pão. Mas existem realmente pessoas que já têm enraizado o seu dever para com a sociedade em tentar estimulá-la para os eventos culturais - estão sempre a todo o custo a tentar formar mentes pensantes. Talvez seja uma questão de princípio.
E o povo que pensa? Pensa?
Com o aumento das redes mudiais de informação, todos passamos a ter acesso à cultura (boa ou má). Aliás, penso que tudo começou com o aparecimento da fotografia, que possibilitou que qualquer pessoa pudesse ter no seu bolso uma "Mona Lisa". O facto de ter crescido incrivelmente a reprodução da arte, esta também perdeu algo de genuíno. A arte passou a estar presente em todas as casas, mesmo que seja de um modo folclórico (kitsh). Mas daí não evoluiu (para o povo); criou-se uma barreira entre as artes e as massas logo com o início do séc.XX. Os agentes culturais desenvolveram as suas artes muito rapidamente, e as massas pararam no tempo a pensar unicamente no tipo de arte "fiel à realidade aparente". A falha na comunicação entre eles, começa-se a esbater com as tecnologias da informação. O povo cada vez mais já está acostumado às formas de arte de há 50 anos atrás, mas ainda não consegue acompanhar a arte de hoje em dia. Começa-se a cultivar o gosto por formas de arte diferentes, nem que se reflicta basicamente à ida às inaugurações de exposições. De qualquer modo, a criação da Casa da Música, ou do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, ambos no Porto, impulsionou neste distrito a vontade das pessoas por usufruir de cultura. Mas estamos a falar de um centro citadino. E o que acontece com as restantes regiões de Portugal? Como fazer chegar a cultura a todos os cantos?
Em suma, um financiamento é sempre benvindo. Mais romântico será pensar que a cultura deve existir por seu próprio impulso. O importante é que se faça; que se cultive o gosto das pessoas a apreciarem o que a cultura lhes pode dar.

IsabelDomingues disse...

Sou da opinião que o problema da cultura portuguesa, tal como chama a atenção Luís Barbosa no capítulo, "Uma visão horizontal", tem principalmete a ver com "falta de objectivos concretos, de responsabilidade e de ambições".
São na minha perspectivas, lacunas visíveis:
- primeiramente ao nivel dos seus representantes que parecem não conseguir definir prioridades significativas para as realidades dos problemas culturais, sugerindo (quando não impõe!) soluções e tomadas de posição que pouco ajudam a promover uma cultura de desenvolvimento;
- ao nivel dos agentes mais directamente ligados às funções educativas e culturais que parecem dar mostras de um certo desgaste devido à falta de apoios (de recursos humanos e materiais) nomeadamente no contorno das dificultades crescentes numa sociedade tão expansivamente complexa. Indirecta ou directamente este "estado de espírito" abre as portas ao desalento (algumas vezes) e (em situações mais "desesperadas") à simples submissão acomodada de que nada tem a ver com o problema e se rende à fácil posição do "deixa andar".
- e, finalmente, ao nivel da população, em geral, que não consegue identificar esses mesmos problemas exactamente porque acaba por ser, a longo prazo, vítima dessa "confusão" (propositada ou não?!) e falta de investimento na cultura. Vítima porque na raíz da sua formação existe um sistema educativo bastante complexo e ambíguo (basta olhar para a Lei de Bases do Sistema Educativo e as inúmeras interpretação, também ambíguas, que propicia) e que estabelece linhas de orientação pouco definidas aos responsáveis educativos que por sua vez, incosncientemente (na maioria dos casos) os arrasta para um estado de "educação confusa" discrepante da realidade.
Penso que apenas terá sentido falar em financiamento da cultura portuguesa quando as bases se encontrarem objectivamente desenhadas e orientadas para uma cultura de desenvolvimento, onde todos os intervenientes se comprometam a responder responsavelmente pela sua construção.