quarta-feira, outubro 19, 2005

Currículo & Cultura

“ A Grécia é o ponto de partida
a que é preciso regressar”

Sophia de Mello Breyner

Esta pequena reflexão pretende sugerir de que maneira a tradição romana do ensino foi influenciada pela cultura grega. Vou tentar evidenciar em que medida os valores tidos como referências culturais dominantes se articularam com a nova contextualização social e histórica, ou seja, de que modo se manteve a tradição subjacente à cultura romana face à inovação trazida pela cultura helénica.
O florescimento da civilização romana não foi imune ao contágio pelo helenismo, embora a tradição latina já tivesse um modelo de educação bem estruturado, a saber: a prioridade da educação era de ordem prática e social, nunca perdendo de vista o respeito a uma tradição ancestral que vai sendo transmitido de geração em geração. Esta concepção de educação visa inculcar na criança a ética que subordina o individuo a um ideal supremo – Roma e a Res Publica. O objectivo é formar o cidadão – o civis romanus.
Por volta do séc. II a .C. com a invasão e posterior anexação da Grécia e Macedónia, a influência helénica não mais cessará de crescer. Perceptores gregos começam a apoiar a educação dos jovens romanos. Atraídos pela rica clientela, muitos rectóricos, gramáticos e filósofos atenienses começam a dirigir-se para Roma.
Rapidamente os políticos romanos perceberam que o conhecimento da Rectórica ateniense favorecia a eloquência e o impacto dos seus discursos junto das multidões. A eloquência é tida como uma qualidade desejada e admirada por todos, como um sinal seguro de educação, começando então a ser promovida a Rectórica e incluída nos currículos escolares.
Temos aqui um exemplo claro de como existe circularidade entre os conceitos de cultura, competências culturais e currículo, senão vejamos: a cultura, como conceito mais abrangente e representativo de tudo aquilo que o homem vai acrescentando à natureza (artefactos, valores, conceitos, símbolos que caracterizam um grupo ) vai sendo influenciada pelas competências culturais (convergência de comportamentos, atitudes e políticas) que se organizam num espaço comum e inovador. O currículo, conceito dinâmico e flexível, vai reflectindo essas influências e vai sendo reorganizado em função das finalidades da educação tomadas como paradigma.
Quando surgem as Escolas Latinas, irão ser de inspiração grega, tanto no que concerne ao programa como à metodologia de ensino. No entanto, nem tudo foi assimilação pura e simples. O programa educativo romano privilegia uma aprendizagem sobretudo literária, relegando a ciência, a música e o atletismo para um segundo plano. De facto, o ensino da música, da dança, do atletismo, tão importantes à Paideia (educação grega) foram alvo de bastante oposição e resistência por parte de alguns sectores mais conservadores da sociedade romana. Estes, consideravam essas actividades como menores, atribuindo-lhes mero carácter lúdico e recreativo. Relativamente ao atletismo, tão importante para os gregos, era tolerado pelos romanos somente como espectáculo e reservando a sua prática apenas a profissionais ( os romanos chocavam-se com a nudez do atleta). Em Roma optava-se pelas Termas em detrimento do Ginásio, entendido aqui em sentido lato.
Nesta dialéctica de tradição e inovação não podemos deixar de reconhecer no ensino romano algumas diferenças significativas relativamente ao modelo educativo grego, a saber: a institucionalização de um sistema de ensino, isto é, a existência de um organismo centralizado que coordena uma série de instituições escolares espalhadas pelo Império. Este carácter oficial das Escolas e sua dependência do Estado constituem uma acentuada diferença do modelo grego. Também a nível da organização do ensino, os romanos vão criar três níveis distintos aos quais correspondem Mestres especializados: instrução primária, ensino secundário e ensino superior. Para além disso, o sistema educacional romano condicionou toda uma acção futura não só a nível de organização escolar que ainda hoje é actual, como também a nível de renovação e adaptação curricular. Esta questão é da máxima actualidade, já que sabemos que o currículo deve ter significado, deve reflectir o meio sócio cultural em que está inserido e reflectir essa mesma cultura e suas prioridades.

Cristina Dornelas

2 comentários:

Delfim Peixoto disse...

Cristina, eu comentei este teu post mas os " comments" desapareceram...mas eu li e comentei, não ficaram esquecidos. Na aula, se houver oportunidade, podemos trocar ideias

AnaOliveira disse...

Delfim
Eu li o teu comentário. Penso que o Rui também tinha comentado... Havia uma repetição deste post da Cristina... talvez o Professor Varela tenha apagado o outro (pois agora não está aqui) que tinha os comentários.