terça-feira, outubro 11, 2005

Música e Cultura

Música e Cultura







Tendo vivido bastantes anos num país de características culturais completamente distintas das nossas, a Rússia, onde, como sabemos, se verificaram enormes dificuldades ao longo do século xx, tive a oportunidade de conhecer uma cultura de características musicais (e outras) riquíssimas e de constatar o modo como ela se mantem: viva e renovadora.
Apercebo-me assim de alguns indícios preocupantes na nossa própria cultura, reveladores de preocupações demasiado materialistas no que diz respeito ás necessidades primordiais e espirituais do ser humano e, por isso, também ás nossas necessidades particulares como identidade cultural.
Relativamente à música, sem a qual parece não termos podido passar para transmitir a “Saudade” e a melancolia que nos caracteriza, verifica-se hoje o consumo massivo de conteúdos musicais “transgénicos” e descaracterizados que, salvo algumas excepções, não mais transmitem do que uma forte dor de cabeça ao ouvinte.
È sem dúvida fundamental estarmos abertos ás influências externas, mesmo correndo os riscos que estas possam acarretar mas, embora sendo calorosos e certamente detentores de um potencial inato para o desempenho da competência cultural, negligenciamos muitas vezes aquilo que temos de melhor. È certo que tem havido algum progresso neste domínio mas, referindo-me concretamente ao exemplo do Fado como canção de características musicais únicas, verifico que não ecoa como devia em cada canto da nossa terra. Vejo então com alguma surpresa como fora das nossas fronteiras ele é apreciado e cuidado, fazendo parte do quotidiano de outras culturas.
Penso que é necessário adoptar uma postura dúbia em relação ao nosso universo cultural: Por um lado sermos suficientemente cuidadosos, firmes e seguros daquilo que somos e, por outro, o bastante flexíveis e receptivos para poder apreender e renovar a nossa identidade cultural através do contacto com as outras.

2 comentários:

Delfim Peixoto disse...

Concordo, Rosa! Tens toda a razão, mas acho que também aqui não podemos culpar só os artistas, os músicos...(nem o próprio público )mas também os políticos e agentes econômicos que vêem na Cultura um " desperdício" de dinheiro, salvo algumas excepções.
Vejamos o caso do Ballet Gulbenkian, o Seiva trupe, o teatro do Norte, a Casa da Música, entre tantos outros.
Acreito que isto só mudará quando na educação infantil, desde o berço, as Artes ( Música, Drama; Pintura,modelagem,...etc) as crianças forem educadas para e pelas artes.
Mas todos nós sabemos que isso é muito difícil. Veja-se a Opção de Música no 3.º Ciclo que é constantemente anulada sem haver razões pedagógicas ou de colocação de docentes e que em algumas escolas nem é dada aos alunos. Veja-se a inexistência no 1.º Ciclo de professores especializados nas áreas.
Tudo começa aqui.
Sei como tu que as palmas e o público serão a nossa alma, mas também penso que será melhor tocar para 10 atentos que para 1000 a assobiar.
Agora também nos cabe a nós,profissionais docentes e mais até, músicos mudar tudo isto, talvez começando por questionar se os horários dos concertos são os mais adequados, os locais onde, as obras, e sobretudo a divulgações dessas actividades.
De facto, apoio a tua "revolta". Bastava a Comunicação Social aplicar a Legislação que defende horas de emissão de autores portugueses que não só os contemporâneos. Talvez bastasse só isso. E nós, professores, educarmos os nossos alunos para serem bons ouvintes e amantes do que é realmente Música

Hildeberto Peixoto disse...

Estou de completo acordo com o comentário do Delfim quando diz que não devemos culpar apenas os músicos e público mas também os políticos e dou um exemplo concreto:
Na região Autónoma da Madeira existe um Gabinete Coordenador das Expressões Artísticas no 1º Ciclo, o que possibilita que, actualmente, todas as escolas do 1º Ciclo tenham um professor especializado em Música a leccionar a Expressão Musical.
Na Região Autónoma dos Açores, e falo da realidade da Ilha do Pico que é a que eu conheço bem, todos os agrupamentos de Escola (três)têm um professor de Educação Musical encarregue pelas escolas de 1º Ciclo e Jardins de Infância. Aliás, não só a música mas a Educação Visual e a Educação Física.
Quero dizer com isto que esta realidade só é possivel com a boa vontade das respectivas Secretarias Regionais da Educação e Cultura (vontade política), mas também um grande esforço por parte dos professores das artes em geral, e da música em particular, que bastante esforço fizeram junto das referidas secretarias e escolas que, actualmente, têm poder para decidir se querem, ou não, que as expressões sejam trabalhadas por professores especialistas no 1º Ciclo e J. de Infância.
No 3º ciclo, a Educação Musical funciona como opção, bastante concorrida devido à grande tradição de Bandas Filarmónicas na Região, as quais uma grande parte dos jovens integra.
Em quatro anos que estou no continente, e desculpem-me se estou errado, noto uma grande falta de vontade política, mas também não vejo união e empenho por parte dos professores de Educação Musical (e das artes em geral) junto das entidades políticas de forma a se reverter essa situação. (é a leitura que faço ao longo de quatro anos a conviver e a dialogar com colegas da área do continente - espero estar errado...).