segunda-feira, outubro 31, 2005

"Porque é que tens braços dessa cor?"

A cultura faz parte nos, está dentro de nós, é base daquilo que nós somos, das opções que tomamos dos conceitos que temos, dos nomes que damos a objectos, atitudes e sentimentos. Quando a confrontação com outras culturas acontece passamos a reconhecer muitas das características que definem a nossa cultura.

No seguimento do trabalho de grupo realizado na última aula, e pelo facto de nesse mesmo grupo se poderem partilhar diferentes experiências de culturais, decidimos todas que, para além das conclusões gerais a que chegámos, deveríamos trazer para este blog algumas das experiências particulares.

O que posso trazer para este blog é o relato de algumas vivências de três meses em Moçambique neste Verão. Como costumo dizer, foi outro Hemisfério, outro Continente e outro Oceano,.... As diferenças culturais colocam-se ao nível dos grandes princípios e valores mas também ao nível daqueles “pequenas/grandes” aspectos que podem ser fundamentais para a “convivência e compreensão de outras culturas”.

- A língua –
Apesar de nos dois países partilharmos a mesma língua de Camões, a mesma “langue”, segundo Ferdinand Saussure, não partilhamos a mesma “parole”. Na verdade, as mesmas palavras nem sempre possuem os mesmos significados. E novas palavras, imperceptíveis na nossa cultura, fazem igualmente parte desse português moçambicano.

-A religião –
Em Moçambique existe um número indeterminado de religiões, seitas, igrejas, crenças,... E um ainda maior numero de junções e interpretações dessas mesmas. Mesmo quando falamos da religião católica (uma das mais presentes e de cariz mais europeu), ela é vivida e interpretada de forma única à luz de uma cultura fortemente marcada pela presença dos espíritos e magias africanas.

- A igualdade de oportunidades –
É cada vez mais evidente a existência de dois (ou mais) mundos, onde a igualdades de oportunidades surge como uma utopia cor-de-rosa. Não podemos ser indiferentes às desigualdades existentes entre nações e culturas. Mais do que a capacidade económica, são as vontades e mentalidades que acentuam essas diferenças.
Em Moçambique o acesso ao ensino está garantido a toda a população, e isso poderia ser sinal de igualdade de oportunidades, mas em que condições é que esse acesso se dá? Uma escola sem paredes, debaixo de uma árvore, onde a maioria das crianças escreve com o dedo na areia, permite igualdade de oportunidades? Um professor cuja formação foi apenas até ao 10ºano que se vê sozinho perante um grupo de 50 crianças, sem ter qualquer tipo de manual ou directrizes pedagógicas, permite igualdade de oportunidades? Crianças e jovens que percorrem a pé durante algumas horas caminhos de terra para poderem diariamente chegar até à escola, permite igualdade de oportunidades? Penso que todos concordamos que não. Estas dificuldades não são características culturais mas são parte integrante de um povo, e do seu crescimento económico, social e cultural.


-Manifestações culturais –
Apesar das dificuldades, fome, doenças, curta esperança de vida,... apesar de tudo, a maneira de ser deste povo não deixa ninguém indiferente. Aos olhos da cultura europeia e especialmente portuguesa (com o seu eterno fatalismo...), estas seriam mais do que razões para este ser um povo triste e desiludido com a vida, mas não é isso que lá encontramos. O que podemos ver é uma cultura fortemente marcada pela alegria de viver cada instante. Uma alegria presente nas danças e músicas, no colorido das roupas e panos, na riqueza do artesanato, no movimento das ruas e mercados, na boa disposição e leveza com que se enfrentam as tarefas diárias, na gastronomia que do pouco faz muito, nas reuniões e cerimonias familiares.... (e claro, nos sorrisos das pessoas!)

Devem estar agora a perguntar onde é que tudo isto está ligado ao tema a desenvolver na aula. É que tudo isto que agora vos conto, são as expressões do olhar de uma branca, europeia, portuguesa numa terra onde estas características são uma marca muito forte da diferença. A cor de pele, a forma de vestir, de falar, de comer, de agir,.... são inevitavelmente despoletadoras de curiosidade por parte de seres culturais tão diferentes. São estas situações que colocam à prova a nossa “habilidade de conviver e compreender outras culturas”, de sermos capazes de nos envolver de tal forma a ponto de quase nos esquecermos da diferença (apesar desta estar inevitavelmente presente).
Currículo como experiência de vida, foi aquela que aconteceu na pequena escola onde trabalhei, onde mais do que os números e letras, as crianças puderam experimentar a “diferença”. “Porque é que tens cabelos tão compridos? Onde é Portugal? Vieste de carro? Também tens uma mamã? Porque é que tens os braços dessa cor? O que comes lá em Portugal? Lá também há meninos? Tens um nariz tão grande!!....”
“Conviver e compreender outras culturas” é realmente “currere junto” apesar da diferença, para que nessas diferenças e semelhanças possamos todos aprender mais, viver mais e ser mais.

5 comentários:

Joe Powel disse...

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Susana Filipe disse...

Eu sei que não é suposto estar já a comentar o meu próprio post, mas na verdade é mais um pedido de desculpa do que um comentário. É que só depois de ter acabado de escrever o post é que me apercebi que estava tão grande.... Tentei cortar mas,.... não fui capaz de escolher a partilha que deveria retirar... desculpem pois mais do que ninguém acho que os posts deveriam ser pequenos. Prometo que para a próxima vou tentar ser mais breve e trabalhar minha capacidade de sintese :)

filomena disse...

Susana quando se trata de relatos fascinantes como este, lê-se, lê-se e lê-se, sem nos apercebermos da sua extenção. Também não vejo palavra que pudesse ser retirada. Este é na verdade, um testemunho digno de ser partilhado com todos os mestrandos. Não imaginas o quanto eu adoraria ter vivenciado, todas essas experiências.
Referes a falsa "igualdade de oportunidades" e o que pensar quando tomamos conhecimento de que há restrições, quanto à entrada de estrangeiros nas diferentes sociedades europeias. Pior ainda quando tomamos conhecimento do motivo alegado:
. necessidade de preservar a paz, o equilíbrio social e a identidade nacional. É caso para perguntar, porque se fala então tanto em Globalização?
Sabias que está a ser exigida a adopção de programas, para a sua completa integração cultural nas diferentes sociedades de acolhimento?
O objectivo é acabar com a diversidade cultural, anulando as culturas identitárias. Será que é isso que querem? Sendo assim podemos dizer que estamos perante o fim anunciado do Multiculturalismo, mas também de um dos direitos fundamentais de todo o ser humano:
- o de preservar a sua própria identidade cultural.
Bem não tarda muito estás tu a dizer-me que estou a "alargar-me" muito. Não é fácil parar de reflectir nestas questões.

Susana Filipe disse...

Concordo contigo. Quando vejo imagens como aquelas que relatam os acontecimentos na fronteira de Marrocos, não posso deixar de questionar que seres humanos somos nós, capazes de cometer tão grandes atrocidades...
Perceber que por dentro somos todos iguais e que a alegria e o sofrimento não têm cor nem raça, foi um dos maiores ensinamentos que recebi. O outro foi que as diferenças existem naquilo que somos e fazemos, e que essas diferenças são fascinantes e fazem de nós uma humanidade rica e extraordinária. Seria uma enorme perda se perdêssemos todas essas riquezas...

AnaOliveira disse...

Concordo com a riqueza do teu "relato" Susana... é contagiante o entusiasmo com que partilhas a tua experiência! O mesmo digo em relação ao da Isabel Domingues relativamente à sua vinda da Venezuela!

Relativamente à adopção de programas de integração parece-me importante, na medida em que essa integração/inclusão possa acontecer de forma orientada e suportada para evitar situações de exclusão, exploração, etc. Mas penso que não é a isto que te referes Filomena... estás a falar duma integração que "exija" o abandono da cultura própria em prol da aquisição da cultura dominante... neste sentido também não concordo. Acredito que é necessário criar estratégias de intervenção educativa e social "onde todos se sintam representados"(Leite, 2003, p.37), sem descurar ou desvirtuar a identidade cultural dos diferentes actores sociais.

A propósito, cito apenas parte do discurso do Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, proferido num Encontro sobre a Política Educativa: Construção da Europa e Identidade Nacional” em que ele dizia que “a escola desempenhou um papel fundamental na consolidação de uma identidade nacional. Agora é chamada a trabalhar na construção de uma cidadania europeia, sem entender estas duas missões como contraditórias.” (Leite, 2003, p.35) e acrecento uma anotação de parecer de Leite (2003, p.37) que refere que "se esta afirmação tivesse sido proferida num contexto onde se tratasse do debate do mundo, e não apenas da europa, teríamos de dizer "para a construção de uma cidadania universal".

Leite, Carlinda (2003). Para uma Escola Curricularmente Inteligente, Porto: Edições ASA.