sexta-feira, outubro 14, 2005

À procura de um ensino melhor

Os sistemas educacionais convencionais desde sempre (?) tentaram simplesmente transmitir as informações, sobrecarregando o aluno com o “decorar” da matéria (quer se tratasse de aulas teóricas, como história ou filosofia, por exemplo, quer se tratasse de aulas práticas, como no caso das Belas Artes, em que os alunos eram convidados a copiar a maneira de pintar ou de esculpir do professor/mestre). Até um certo ponto, este tipo de ensino era eficaz, nem que fosse em tornar as pessoas possuidoras de uma arte (no sentido lato da palavra). Com a persistência do “imitar” o aluno acabava por realizar uma acção (teórica ou prática) instintivamente, ou melhor definindo, mecanicamente. O mais habitual era os alunos ficarem a cargo do seu mestre por alguns anos, e desse modo empenhando-se exclusivamente na aprendizagem da sua “arte”.

Hoje em dia, o exagero de estímulos visuais e sonoros emitidos pelos media, com o excesso de informação e com a paranóia do consumo e da estética, o caminho para a interiorização dos dados (a sua consciencialização1 – ver nota no final do texto) torna-se cada vez mais difícil. Produzimos tanta informação, que não sabemos o que fazer com ela. Sofremos de SPA – sindroma do pensamento acelerado – que cria uma dependência de novos estímulos. Quanto mais somos bombardeados com informação, mais ansiosos ficamos pela nova dose. Ou seja, as nossas mentes passaram a ser “bancos de dados”, mas que não têm tanta utilidade quanto poderiam ter na nossa vida. A velocidade de transmissão dos estímulos exteriores é tão alta, que as pessoas acabam por perder o encanto pelas coisas mais pequenas e simples da vida, e que procurem cada vez mais o sensacionalismo. Daí que seja difícil hoje em dia captar a atenção dos estudantes (não esqueçamos que este tem neste momento mais informações que uma pessoa de 70 anos há dois séculos atrás).

Continuando este tipo de raciocínio, começo a interrogar-me se de facto é assim tão necessário “embutir” informações nos alunos, especialmente se estas são “gerais” para todos os alunos. Tal como temos visto pela teoria das oito inteligências de Howard Gardner, todas as pessoas (e, neste caso específico, os alunos) têm as suas inteligências desenvolvidas em proporções diferentes, e por isso mesmo são diferentes entre si. Partindo do princípio que começamos por ter uma educação generalizada e que com o passar dos anos se torne mais específica e especializada (por ex., com uma licenciatura ou mestrado e etc.), esta passagem talvez demore demasiados anos. Todos temos a noção de que a nossa memória não utiliza uma grande parte dos conhecimentos que fomos adquirindo, e especialmente aqueles que não conseguiram captar a nossa atenção. Assim sendo, a maneira como ensinamos, bem como o que ensinamos, deveria ser adaptado a cada personalidade. “As matérias e os métodos devem ser adaptados à inteligência do estudante” (Russell, B.). Sendo os professores os alicerces das profissões e o sustentáculo de tudo o que as pessoas são, qualquer currículo que seja desenvolvido, nunca deve ser final, mas estar em contínuo desenvolvimento, e tendo por objectivo final a valorização do “ser”. Como agentes culturais que somos (professores), interessa-nos mais que os estudantes entendam as matérias, e não que as encaixem no fundo da gaveta. Interessa-nos que estes consigam pensar as informações e fazer juízos de valor. Procuramos estimular a criatividade e o exercício dos direitos humanos. Interessa-nos mais formar, do que simplesmente informar. O desafio do professorado é “provocar” a inteligência, não moldando o aluno da maneira que se torne o que se julga melhor, mas deixando que o próprio estudante se encontre a si mesmo. Devemos valorizar a diferença de cada indivíduo. O método expositivo, como único modelo, já não faz sentido, por se tornar muito facilmente cansativo e aborrecido na maior parte das vezes, e por isso mesmo dificilmente captando a atenção do aluno. Porque o que realmente interessa é conseguir captar a sua atenção; é mostrar que o conhecimento vale por alguma razão (ou seja, que é útil). Uma forma de estimular a aprendizagem é tornar as aulas mais abertas; estas não devem ser um monólogo do professor, mas um diálogo entre todos os intervenientes da sala de aula, estimulando o desenvolvimento do pensamento (construindo-o). Do mesmo modo, que toda a escola deve ser aberta. Estamos apaixonados pelas nossas áreas de ensino e daí que nem se põe a questão de quais são as disciplinas com mais valor para a formação de um indivíduo. Todas são importantes, mas nem para todos, nem da mesma maneira. O currículo deve pressupor um ensino flexível a cada indivíduo (quer se trate do professor, ou do aluno), caso contrário não estimula os seus intervenientes, não estimula o aparecimento de mentes criativas, não aumenta nem valoriza as capacidades de cada um.

Como professora e como aluna constato que numa sala de aula, 90% dos alunos nunca têm perguntas a fazer. Poderíamos deduzir que todos perceberam a informação (para além de alguns casos de dificuldade em se exteriorizar), mas trata-se de um facto que se encontra a milhas da realidade. O mesmo acontece com o interesse que os estudantes têm em desenvolver os conhecimento fora da sala de aula; estes simplesmente se interessam na véspera da avaliação; e após a avaliação, já se esqueceram de tudo o que tiveram a decorar. O estudante empenha-se ou por obrigação, ou por prazer em aprender (bastante raro, o segundo caso). Trabalhando com a conjugação entre o prático e o teórico, poderá ser uma forma de captar a atenção dos alunos. Mas se ensinarmos os alunos respeitando o(s) seu(s) tipo(s) de inteligência (adaptando provavelmente o o quê), será mais fácil de estimulá-los, e mais proveito terão eles na sua vida, contribuindo da melhor forma para a sua sociedade (“quem corre por gosto não cansa”).

Chegando a este ponto, incontornavelmente teremos que reflectir sobre a avaliação. Toda a avaliação é necessária, especialmente para a responsabilização do indivíduo pelos seus actos. Mas como avaliar os estudantes, sendo eles todos diferentes em termos de capacidades e sendo um pouco insustentável dar a mesma (in)formação a todos eles? Fará sentido algum tipo uma avaliação quantitativa? Qualitativa? Cada disciplina, ou unidade curricular (para estarmos mais actualizados com os termos), tem os seus próprios objectivos. Fragmentar a unidade curricular, adaptando-a a cada aluno particular também não faz sentido. Mas então o que fazer? Se alguns estudantes têm maior facilidade na compreensão de assuntos específicos, outros há que com muito esforço atingem alguma informação, mas também outros há que nem com todas as ajudas chegam lá. No caso da avaliação estética, por exemplo, o caso tornar-se-á ainda mais complicado, porque entra a subjectividade no campo da avaliação, por muito que não queiramos. A arte não é uma ciência exacta, e como tal, absurdo se torna quantificá-la. Podemos analisar se um trabalho cumpre os objectivos, se utilizou os dados correctamente, mas a expressividade e a criatividade como avaliar correctamente? Corremos o risco de não entender nem o percurso, nem o trabalho final do aluno. E todos nós, que já fomos (e neste caso até continuamos a ser) alunos, temos pelo menos uma experiência na nossa vida onde não tenhamos concordado com a nossa avaliação, onde sentimos que uma parte ficou por desvendar. É sempre difícil avaliar e este é um ponto que deixo em aberto.

A terminar este ensaio, gostaria de partilhar um texto muito interessante (
http://criticanarede.com/ens_russell.html) da autoria de Bertrand Russell, retirado do livro “Ensaios Cépticos” de 1957, intitulado Liberdade e Autoridade no Ensino. Trata-se de um texto que avalia as diferentes perspectivas dos intervenientes que influenciam o ensino: o Estado, a igreja, o professor, os pais e a criança. Também desenvolve um pensamento sobre a liberdade e a autoridade, mas sempre tendo em vista que toda a criança quer aprender; só é necessário fazer com que esta sinta que o conhecimento vale a pena e que seja na altura propícia.

1Um facto importante devemos analisar e que é a consciencialização da cultura. Esta, tanto é consciente, como inconsciente, e na maior parte das vezes até é mais a segunda opção. Tudo depende de como é vivida. A cultura das massas é vivida inconscientemente (entendemo-la por hábitos/modos de vida de um povo). A cultura vivida auto-conscientemente e analisada só o é feita por uma minoria (trata-se por ex. de obras intelectuais/artísticas/literárias). A diferença relevante não está nos tipos de cultura que podemos definir, mas nos graus de consciencialização. E como facilmente nos apercebemos, é mais o modo de vida que move a grande maioria das pessoas, do que uma grande obra literária, por exemplo. Assim sendo, se o estudante é habituado a aceitar o que lhe dão sem se interrogar, quando se tornar num indivíduo “independente” dificilmente começará a tomar consciência sobre si e sobre o mundo que o rodeia – torna-se num “dependente”.

Para além dos textos fornecidos pelo professor, tomei atenção igualmente a dois livros:
Eagleton, T. (2000) “Ideia de cultura”. Colecção memórias do mundo
Cury, A. (2003) “Pais brilhantes, professores fascinantes”. Pergaminho

3 comentários:

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