segunda-feira, outubro 31, 2005

Uma Sociedade tolerante ou hipócrita?

Depois da aula do Professor Varela na passada sexta-feira, ao desfolhar a "Pública" de domingo, ressaltou-me um artigo muito interessante sobre multiculturalidade, que dá para pensar....

A Holanda, país de modelo multicultural, da tolerância, da liberdade individual, de estado não moralista, com ausência de leis simbólicas proveniente dos fundamentos calvinistas, após a morte do cineasta Theo Van Gogh e do político Fortuyn, todos os fundamentos foram postos em causa.

Será que na Holanda a tolerância é autêntica? Ou esconde antes uma indiferencia total? Existe hipocrisia face aos guetos encobertos, étnias, ou questões religiosas muçulmanas (Marrocos e Turquia são as duas principais comunidades da Holanda).
País de forte economia, abalada pelo 11 de Setembro (EUA), passaram a colocar em foco não só a sua política de imigração, como também o modelo multicultural, transportando-os para discussão pública.
Assim, a integração das comunidades étnicas, os efeitos multiculturais nas novas gerações, as raízes familiares e o modo de ser holandês, está na ordem do dia e direccionado para acentuar as diferenças e não na resolução dos problemas.
Com a degradação do clima social especialmente quando existem oscilações económicas, verifica-se que os holandeses nunca foram na concepção da palavra tolerantes, sempre se mostraram indiferentes, desde que não fossem confrontados com essas situações. Uma coisa é o que a sociedade pensa, ou promove, outra totalmente diferente é aquilo que pratica, embora a multiculturalidade seja um evento cultivado (Domingos culturais de Utrecht onde há música, dança e gastronomia ou então no último Ramadão que a comunidade muçulmana convidou os holandeses e o primeiro ministro a participar) e existam leis e práticas muito permissiveis.

3 comentários:

anacarreira disse...

O problema da segregação, que aqui levantas, Alexandra, é muito pertinente e actual. Infelizmente, a Holanda não é caso único na Europa.
Eu já senti na pele, ao ser acusada de roubar um prospecto turístico, num quiosque dos subúrbios de Liege , porque me confundiram com uma magrebina. O ambiente de segregação, xenofobia e medo, que paira nos países que foram acolhendo imigrantes dos diversos cantos do mundo é cada vez maior, e tem múltiplas origens.
Mesmo nos países de leste, já existem lei e movimentações na opinião pública contra algumas minorias, daqueles países.
Ainda voltando à Holanda, algumas escolas não aceitam crianças negras, apenas devido à sua cor. Difícil de aceitar, quando é da escola que deve partir a multiculturalidade.
Na minha opinião, creio que apenas poderemos levantar a nossa voz, denunciar e tentar construir uma outra realidade, cheia de diversidade e tolerância.

AnaOliveira disse...

Essas relações de indiferença ou de não “estabelecimento de real comunicação” (Leite, 2003, p.32) entre as diferentes culturas existem um pouco por todo o mundo. Como é o caso das comunidades ciganas que vivem, entre nós, há séculos… Aqui está um exemplo de que não basta a língua…
Daí a importância de se “transformar o mero contacto entre os grupos em processos de interacção e comunicação” recíproca (Leite, 2003, p.33).

De acordo com S. May in (Leite, 2003, p.33) o ““multiculturalismo benevolente” tem muita importância na identidade cultural e étnica, mas muito pouca importância no que determina negociações de sucesso para grupos étnicos minoritários nas suas interacções com os grupos dominantes na sociedade”. Também Hulmes in (Leite, 2003, p.33), refere que “as vozes das culturas minoritárias são ignoradas, excepto quando elas falam de níveis de actividades culturais tais como a música, a dança, a cozinha e hábitos sociais”.

De facto, não basta a partilha de espaço físico, a curiosidade pelo exotismo de determinada cultura… nem a simples aceitação de diferentes manifestações culturais para que se verifique a “competência cultural”… É fundamental o estabelecimento de uma comunicação partilhada e fundamentada que favoreça o conhecimento e o respeito pela identidade de cada indivíduo…

Leite, Carlinda (2003). Para um escola Curricularmente Inteligente, Porto: Edições ASA.

Cesar disse...

Já repararam que os nossos políticos (de correntes de esquerda ou direita) matriculam os seus filhos em colégios de alto nível sócio-cultural, longe da realidade multicultural que predomina nas grandes cidades? Querem melhor exemplo de hipocrisia?