terça-feira, novembro 15, 2005

A cultura visível e invisível: uma actuação consciente por parte da escola

A cultura adquire-se pela aprendizagem, consciente e inconsciente, transmitida por símbolos, modelos e valores a cada indivíduo, ao longo de gerações em gerações.
Segundo o Professor Dr. Xerardo Pereiro “A cultura é informação herdada, através da aprendizagem social, portanto diferente do natural (herdada geneticamente) e com uma especificidade baseada no cérebro, que é a linguagem. A linguagem permite aos humanos articular, transmitir e acumular informação aprendida como nenhuma outra espécie pode fazer” (2004).
A linguagem é o código lógico social, partilhado pelos membros de um grupo. Ao lado da linguagem, coloco a comunicação e a prática social, porque estão interligados à cultura.
Todos nós, de uma forma geral, possuímos uma “Cultura” ou de uma forma específica, várias “Culturas”. As pessoas partilham a sua cultura, unem-se umas às outras, socialmente, dando origem a uma identidade de grupo e a uma identidade individual, a partir de normas, atitudes e valores pessoais, culturais e sociais.
Para Ruth Benedick “A cultura é uma pauta ou um conjunto de padrões coerentes de pensamento e acção, uma organização coerente da conduta que inclui a totalidade duma sociedade. A cultura é hereditária e aprendida, não genética; tende à integração e à coerência, constitui configurações articuladas, é plástica e realiza a função de atar e unir aos seres humanos” (1971).
Desta forma, a cultura apresenta os seus padrões comportamentais, os valores, as atitudes e os significados, iguais ou diferentes, às outras culturas.
No entanto, convém referir que nas culturas, a família possui papéis sociais e afectivos determinantes, para a formação pessoal, social e cultural do indivíduo, principalmente durante a infância.
A educação infantil constitui, num determinado espaço e tempo, a possibilidade de fazer, sentir, pensar, criar e transformar, através da descoberta, da sociedade e da cultura. Neste sentido, proporciona um desenvolvimento múltiplo mais justo, entre a criança e a cultura, se for aprendido durante a infância, onde as aprendizagens solidificam e marcam o desenvolvimento e a formação. A educação básica corresponde a uma etapa primordial na formação da personalidade, no desenvolvimento afectivo, na capacidade de diálogo, nos relacionamentos interpessoais e sociais e no entendimento entre povos e culturas.
Dentro de uma cultura subsistem sinais e comportamentos aprendidos e ensinados inconscientemente, que influenciam, modificam e alteram o ser humano, como por exemplo, o código linguístico, a postura, a fala, as expressões corporais. Todos estes sinais, símbolos e comportamentos constituem a cultura invisível de um povo.
A cultura visível identifica-se no campo visual, no exterior e no físico do indivíduo, como o vestuário, a gastronomia, as habitações, a geografia, o clima, a língua, a história,…
Em suma, entendo a cultura como uma pertença de todos, directa ou indirectamente, que condiciona e conduz a actividade humana e grupos sociais, que se misturam, interagem e crescem mutuamente, numa sociedade complexa, contemporânea, como por exemplo a escola. O ser humano recebe e encontra-se em constante exposição e mutação na sociedade, na escola, dita cultural, logo não existe uma única cultura, mas multiculturas ou uma diversidade cultural.
Concluo, que o indivíduo só consegue estabelecer uma comunicação eficaz entre as diferentes comunidades, se entender e conhecer as várias aparências relacionados à cultura.
A escola deve implementar alunos conscientemente comunicativos, abertos à diferença, à mudança e às tecnologias, se atendermos a uma maior consciência crítica e reflexiva, acerca das desigualdades sociais, e se possibilitarmos a todos, as mesmas oportunidades. Ao incluirmos os aspectos invisíveis, para além dos visíveis da cultura, estamos a recusar os estereótipos e as interpretações erradas de uma dada cultura. No fundo, estamos a incutir uma maior sensibilização, uma interacção social e uma aceitação da sua cultura invisível e da do outro.
A educação deve promover a consciência intercultural e crítica da criança, para que ela possa optar, preservar e construir a sua identidade com respeito, de uma forma saudável e assertiva.

Referências Bibliográficas:
BENEDICT, Ruth (1934-1971). Padrões de Cultura, Lisboa: Edição Livros do Brasil.
Internet:
http://www.miranda.utad.pt/~xerardo, Xerardo Pereiro (Professor, Antropólogo e Doutor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD)
http://www.miranda.utad.pt/~xerardo/antropologiacultura/tema2.doc
http://www.terra.com.br/forbidden.htm.cultura

1 comentário:

AnaOliveira disse...

Sofia

No último parágrafo, eu substituiria a palavra "incutir" por "promover", "favorecer", "estimular". Ainda que um dos significados seja, precisamente, promover, é um vocábulo que em contexto de educação me parece muito "directivo"...

Ainda nesse parágrafo, acerca da "aceitação da cultura invisível", própria e do outro, penso que, a mesma, deve ser, não só aceite, mas analisada, discutida, compreendida e valorizada...

A propósito da intervenção da família na educação intercultural:

A actual heterogeneidade étnico- cultural tem repercussões no (in)sucesso escolar, acarretando a diversidade questões étnicas, linguísticas, religiosas e culturais, que devem ser trabalhadas em contexto educativo.

A complexidade destas questões, requere o estabelecimento de parcerias, nomeadamente, com as famílias e comunidade em geral.

Contudo, os novos perfis de família têm, também, implicações educativas, como refere Souto (1996, p. 73). Ainda assim, não se pode ignorar a influência que a "filosofia da escola isolada" (Souto, p. 73) teve no afastamento das famílias, no que refere à intervenção nos estabelecimentos de ensino.

Ainda de acordo com o autor supracitado, "hoje que queremos uma "escola aberta", as mães trabalham e os avós estão ausentes", ao contrário do passado, em que as mães e as avós estavam mais em casa, mas a escola nã solicitava ou motivava a sua participação.

Contudo, a legislação (e a mudança de atitude por parte da escola e das famílias - com perfis mais interventivos), tem vindo a preconizar uma participação mais activa das famílias, o que é fundamental, pois tal como refere Canário (1992), in Souto (1996, p.75) "sem a presença efectiva das comunidades de onde os alunos são oriundos não há comunidade educativa", pelo que a família deve ser um dos parceiros privilegiados da escola na educação intercultural.

Contudo, os processos que permitem esta parceria enfrentam algumas dificuldades, entre outras, pelo surgimento de questões, em alguns autores e professores, no que refere à influência das pressões sociais no alargamento das funções do professor, mais precisamente, funções técnicas e sociais, para além das "tradicionais tarefas educativas" Souto (1996, p. 74) - opinião manifestada, noutro contexto, pelo adkalendas.

Por outro lado, algumas famílias também se sentem distantes da escola, pois consideram que as "suas raízes culturais" são pouco privilegiadas, não se sentindo motivadas para um envolvimento efectivo... (e afectivo).

Para minimizar estes obstáculos, Delgado-Gaitau (1993) in Souto (1996, p. 75) refere que escola deve olhar para as famílias, não numa "perspectiva de déficit (...) mas procurar as suas potencialidades estruturais, os seus pontos fortes".

É urgente que o insucesso escolar não seja, exclusivamente, atribuído a "factores externos" à escola, mas também à "organização escolar, às práticas educativas, aos materiais pedagógicos e ao currículo oculto", como refere souto (1996, p. 75).

Assim, e para terminar, a educação intercultural não deve assentar "em programas de educação compensatória (...) ou em práticas de assimilação", mas sim apoiar-se no desenvolvimento de projectos que promovam a articulação com a comunidade e que garantam a igualdade de oportunidades não só no acesso", mas também "no sucesso", como refere Souto (1992, p. 92).

(1996) Professor, Uma Profissão em Mutação?, Actas do 1º Congresso Fórum Educação, Sociedade de Estudos e Intervenção Pedagógica e Profissional, Lisboa.