quarta-feira, novembro 09, 2005

currículo - que horizontes?

Ao contrário da noção estática e compartimentada que tinha desta palavra, parece-me hoje extremamente complicado, dada a vastidão e diversidade das possibilidades que pode comportar o seu significado, definir com clareza o que se entende por currículo adequado a uma escola. Algumas iniciativas inovadoras e experimentais, na ânsia de alterar toda a “ordem” estabelecida e fundamentada em conhecimentos e práticas anteriores, correrão por vezes o risco de se dissipar e afastar dos objectivos Propostos, por não estabelecerem pontes relacionais e justificadas com as verdadeiras necessidades de aprendizagem dos alunos. Parece-me que convém não esquecer, antes de mais, que o currículo deverá ter como objectivo primeiro veicular conhecimentos e aprendizagens nos domínio científico, técnico, tecnológico ou artístico, permitindo a cada aluno assimila-los de modo mais adequado à sua especificidade.
A minha experiência profissional baseia-se no contacto individual com os alunos, transmitindo conhecimentos e estratégias que lhes possibilitem o domínio técnico e expressivo de um instrumento musical. Esta transmissão só é possível “a dois”, e nenhum aluno toca a mesma peça musical da mesma maneira. O “programa” é apenas um molde onde poderão caber múltiplas escolhas musicais. Assim, com a ajuda e a concordância do professor, o aluno pode escolher esta ou aquela peça musical, ou seja, um conteúdo programático que lhe seja útil e agradável ao mesmo tempo.
Também o processo de aprendizagem, que é em linhas gerais o mesmo para muitos (não para todos!), nunca se concretiza da mesma forma. O professor aborda as questões sob prismas muito distintos, por vezes antagónicos até, para alcançar os objectivos definidos: executar com expressão musical e desenvoltura técnica o programa exigido para determinado grau de desenvolvimento. Eu diria que a metodologia da improvisação, no bom sentido, tem de estar sempre presente na aula de música. Os caminhos são múltiplos e os sumários no livro de ponto nunca seguem um plano previamente estabelecido. Nestas circunstâncias a interacção professor/aluno existe de facto, permitindo conhecer com clareza os domínios onde ele se sente mais motivado
E habilitado para responder. A este respeito achei curiosa a Teoria das Inteligências Múltiplas, pois penso que estas Inteligências são muito reais e perceptíveis quando somos professores de um aluno só. Se sabemos, por exemplo, que uma criança tem respostas claras no domínio auditivo e interpretativo, o apelo à aprendizagem é feito através do recurso a estímulos de natureza sonora. Mas, se os indícios reactivos da criança nos encaminham para esferas da percepção que não a auditiva, será necessário recorrer a outros meios criativos para cativar interesses e estimular a aprendizagem.
Ser professor nestas condições, reconheço, embora com algumas desvantagens, é muito mais simples, tanto no processo de ensino/aprendizagem, como na definição de objectivos. Estes serão muito mais difíceis de definir para o colectivo: que fazer? O que é bom ou útil para uns pode não o ser para outros. O que é desejável hoje poderá já não o ser amanhã.
Parece imprescindível uma reflexão profunda sobre os conteúdos da escolarização, de modo a clarificar quais os conhecimentos que a escola deve transmitir aos alunos, e como o devem fazer, para assim encetar iniciativas curriculares que não corram o risco de cair no pictórico e no difuso.

3 comentários:

AnaOliveira disse...

Rosa, percebo o que queres dizer, mas, a meu ver, o conceito de "transmissão" no âmbito da educação não será o mais apropriado.

Relativamente ao programa, penso que não deverá ser entendido como um "molde", mas como um fio condutor... uma referência dos conteúdos a trabalhar.

No que refere à dificuldade de trabalhar em grupo (turma) e à constante mudança de paradigmas, penso que constituem um desafio e reforçam a intemporalidade de alguns elementos, nomeadamente, os valores e a identidade cultural.

AnaOliveira disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
AnaOliveira disse...

Ainda relativamente à mudança e à transmissão, vou transcrever uma citação que me parece interessante e que remete, de certa forma, para a urgência da reestruturação da intervenção da escola, encarando o currículo como "conjunto de todas as experiências que o aluno adquire, sob a orientação da escola" (Foshay,1969, p.275), que "engloba todas as experiências de aprendizagem proporcionadas pela escola" (Saylor, 1966, p.5). (in post do Delfim - 8/10/05)... e ainda, tal como referiu o Professor Varela, como "tudo o que acontece na escola".

Assim, a escola deve acompanhar a mudança e ser, também, geradora de mudança, envolvendo toda a comunidade educativa, incluindo os alunos, nesse processo. Dessa forma, facilitará o processo de ensino-aprendizagem enquadrado na "vida real" de todos os intervenientes...

"Em vez de produzir pensadores, a escola tende a produzir assimiladores, acumuladores e repetidores de informação, informação esta, ainda por cima, que corre o risco de se tornar obsoleta com a mudança abrupta e acelerada em que estamos mergulhados".

Fonseca, Vítor (2001) in Patrício, Manuel (2001, p. 21) Escola, Aprendizagem e Criatividade, Porto: Porto Editora.