quinta-feira, novembro 10, 2005

Da subjectividade da Arte à Cultura Portuguesa

Tendo em consideração a proposta do Professor Varela, apresento neste post uma reflexão sobre a existência da Cultura Portuguesa.
Falar da existência ou não, da cultura portuguesa, obriga-nos a remontar à nossa origem, porque só conhecendo o nosso passado é que compreendemos o presente e preparamos o futuro. Sendo assim, o povo português, povo dos brandos costumes, originário nos Lusitanos, tem características muito próprias. Apesar desta génese, foi sofrendo e absorvendo infuências de outros povos (Romanos, Árabes, etc), através das invasões, conquistas e viagens. A nossa cultura foi adoptando os aspectos sociais, políticos, artísticos, e adaptando-os ao contexto cultural e até ambiental do nosso país . Portanto, não existe a pura cultura portuguesa, mas sim uma adaptação, ao longo de gerações, do ser, das suas atitudes e ambiente socio-cultural, a um "novo" contexto de situações.
A cultura é um conjunto de atitudes, costumes e crenças que identificam um determinado grupo de pessoas. Cuja comunicação funciona como um meio em que se transmite através da linguagem, de objectos materiais, rituais, pelas instituições e pela arte, passando de geração em geração.
"A Arte não é um reflexo do real, mas um processo criativo de imagens, sons, e movimento no qual participam o mundo dos sentimentos e pensamentos do criador e o contexto sociocultural a que este pertence."
René Huyghe, A Arte e a Alma.
Por conseguinte, e analisando a citação de René Huyghe, constatei que a arte é parte integrante dessa comunicação e é o reflexo da "linguagem", tanto do peculiar carácter português, como também do contexto sociocultural em que ele está inserido. É de salientar, ainda, que apesar da nossa cultura ter vindo a "beber" as características de vários povos, a realidade interior do português oferece à arte uma transformação e criação diferente da representação de uma mesma obra noutra cultura. Esta afirmação, revela-se no facto de que a Arte considera-se como um ente que reflecte três aspectos da vida humana:a realidade exterior, a criação plástica e a realidade interior. Estes três elementos formam um círculo em constante interacção.
A subjectividade do conteúdo atribuído à arte, criação plástica, é característica, igualmente, da essência interior (sentimentos,pensamentos) de cada um. Logo, torna-se muito difícil estipular uma regra, um método, uma definição desse pensamento.
Pode-se, então, concluir que a arte sendo um componente dinamizador da cultura portuguesa, representa a essência do sujeito e de tudo o que o influencia.
A subjectividade do ser é que determina a sua cultura e é também própria e visível na arte.

2 comentários:

Margarida disse...

Giselda, não concordo plenamente com a tua última afirmação ("A subjectividade do ser é que determina a sua cultura e é também própria e visível na arte") e demonstro a minha reflexão da forma que se segue.
O artista, como ser subjectivo, é influenciado pelo "outro", quando se exprime artisticamente, e por isso nunca poderá ser totalmente "original" (isento das influências). Um artista que "venere" por exemplo o trabalho de um Marcel Duchamp, inevitavelmente criará objectos/situações artísticos/as bastante próximas do seu mestre (mesmo que seja só em termos ideológicos). Este artista tanto pode ser português como japonês; o seu produto corre o risco de ser "universal", isto é, não característico de nenhuma cultura em particular. Se pensarmos no trabalho de um Ângelo de Sousa, de um Baltazar Torres, de um Álvaro Lapa, de um Siza Vieira e etc., podemos afirmar que o seu trabalho é caracteristicamente português? Manifestações há que são mais próximas da nossa cultura, mas estarão isentas da influência do "outro"? Afirmar que é pura cultura portuguesa parece-me desajustado da realidade. Afinal quais são as suas características?
Se pensarmos igualmente no método de ensino das artes que prevaleceu no passado, também chegaremos à mesma questão – os aprendizes tinham que imitar da melhor forma possível o "mestre", tornando na maior parte das vezes as manifestações artísticas iguais umas às outras (mesmo que os artistas fossem de nacionalidades diferentes). Tratava-se mais de uma habilidade artística do que de uma manifestação cultural que transparecesse uma cultura específica.
Mesmo hoje em dia, se reparamos nas manifestações artísticas e não olharmos para as nacionalidades ficaremos a pensar mais do que duas vezes sobre a questão. E não é por se representar um mundo “africano”, por exemplo, que estaremos a falar de um artista de origem africana; pode-se tratar simplesmente de um interessado pela cultura africana, que possa ter visitado (fisicamente, ou mentalmente, ou literariamente, …) esse continente, mas que certamente terá ficado fascinado com algo. A tendência mais natural de um criador é certamente recriar o seu mundo envolvente, mas as influências são tantas, que dificilmente se criará uma arte “pura” (no sentido de isenta das influências do “outro”).
Será que Paula Rego é uma pintora unicamente portuguesa, ou será uma mistura com a cultura inglesa? As personagens (humanas) assemelham-se a um certo tipo de portuguesas, mas o tema, o motivo, é português?
Por aquilo que tenho constatado, os artistas que prevaleceram na história e que se tornaram em clássicos, tornaram-se igualmente em artistas universais.

anacarreira disse...

Giselda, aqui referes uma dimensão muito importante, a subjectividade do ser, para determinar uma cultura, mas não é esta a única dimensão que influi na Cultura de um povo, neste caso na Cultura Portuguesa. Ela é factor de distinção entre indivíduos.

Como identificar uma Cultura Portuguesa? O que nos identifica ou distingue é este “modo de ser”, são modos de actuar e de filtrar uma cultura que é Universal.
É uma cultura que se identifica pelo não visível. È uma forma de sentir que se projecta na música que fazemos e tocamos, ou na comida que confeccionamos.
Fernando Pessoa, que sonhava com o Quinto Império, foi claramente um escritor da Cultura Portuguesa, espelhando algumas particularidades mas ao mesmo tempo tão próximo de um Walt Whitman, tão próximo de uma Cultura Universal (ou do mundo ocidental).
É difícil pensar e defender uma Cultura Portuguesa, apenas assente em pressupostos do não visível, mas mais difícil é considerar-me Portuguesa não encontrando essa ancora de suporte que é a minha identidade cultural.
Assim, considero o posicionamento de Eduardo Lourenço a este respeito, fundamental para encontrar a nossa identidade.