quarta-feira, novembro 02, 2005

A ESCOLA, COMO UMA INSTITUIÇÃO CULTURAL DIVERSIFICADA – Um texto de partilha e reflexão

A escola é um sistema social e cultural, uma vez que relaciona alunos com todos os outros actores sociais. É um espaço de vivência, conhecimento e de auto-formação, mútuo e bastante rico, onde a comunidade e a diversidade cultural encontram-se ao serviço e à disposição de todos. No entanto sei e constato, que não existe meios suficientes, nem condições físicas e humanas, para se obter fins, ou seja a troca de informação e o resultado dessa informação vai se perdendo, porque não existe uma continuação e um projecto unanimo e acordado por todos, segundo uma linha orientadora que se preocupa com os interesses e necessidades dos alunos.
Para mim, a cultura é um todo, integrado e estruturado, que expressa a identidade de um povo em constante adaptação, transformação e acumulação e funciona como a herança adquirida e formada por qualquer ser humano. Todo este processo é desenvolvido, consoante a experiência e os saberes apreendidos ao longo do tempo, na lógica do actuar, pensar e acreditar em respostas viáveis e significativas.
A escola deve ser um local de encontro, diálogo, afecto e convivência onde cada um se sinta bem, possa participar e intervir em actividades instrutivas, educativas, interessantes, independentemente das diferenças culturais, físicas e sociais.
Em suma, uma escola aberta à negociação e à diversidade cultural, ou seja uma escola inter/multicultural.
No entanto, convém reforçar que as pessoas são de carne e osso e as alternativas a criar exigem, meios, infra-estruturas, recursos humanos e físicos mais aptos à mudança e às exigências da sociedade. Então digo, que na realidade o que se pretende, não é o que se faz, existe um desfasamento enorme que precisa de ser culmatado. Tenho consciência da inquietude que este problema levanta a todos, comunidade escolar e muito mais aos professores. Eu pessoalmente preocupou-me com este drama e tento criar alternativas, métodos e estratégias de trabalho conjunto, onde a cultura do meio esteja presente, através da participação e intervenção da Comunidade com a Escola e vice-versa.
Penso, que só através da reflexão e da acção é possível descobrir-se a essência das coisas e das pessoas, se houver uma grande afectividade e um trabalho ordenado, sequencializado, conhecido e interligado. É preciso conciliar e pensar nas estratégias e nas dinâmicas a adoptar, que possamos trabalhar, com os alunos, o informativo e o vivido.
Os agentes socialialmente educativos, pais, alunos, professores, em conjunto com os outros agentes sociais (mídia), são responsáveis por abolir ou diminuir estereótipos, abrir caminhos a novas reflexões e às práticas que contribuam para transformar e mudar, sem esquecer o passado, a herança cultural.
Assim, penso que os comportamentos, as acções, os pensamentos dos alunos, podem ser o resultado das práticas e até dos pensamentos do professor. Então, o professor deve conduzir o aluno na aquisição de competências essenciais e que possibilitem o aparecimento de respostas úteis e transitáveis, no processo de aprendizagem contínuo, enriquecido e cumulativo. Tudo isto, constitui o que passo a designar por Património Educativo e Cultural.
Estou consciente, da urgência de uma intervenção, uma conciliação, entre a tradição e a inovação e ao mesmo tempo estabelecer a ponte entre as crianças e a comunidade, por forma a que todos se sintam envolvidos, implicados, responsáveis e conscientes, quanto ao ensino-aprendizagem e à formação de indivíduos aptos, conscientes, reflexivos e críticos na sociedade.
Somos todos os professores, agentes de formação activos, participativos e responsáveis pelas novas mentalidades, sociais e culturais, mais ricas, diversificadas e afastadas dos estigmas, da diferença, tudo isto porque é errado pensar e dizer que uns são os detentores do poder/ saber e outros os fracos.
O provérbio “Somos todos diferentes, somos todos iguais” constitui a ideia principal, o desafio e uma das preocupações actuais dos professores e de toda a Comunidade. Tudo isto, passa muito pela consciência e percepção da diferença, que existe dentro e fora de nós, começando logo pelo aspecto físico de cada um.
É preciso saber valorizar e aceitar a diferença, descobrir a sua riqueza e torná-la indispensável e de fácil actuação, dentro e fora da escola.
A escola actual, é um espaço aberto e de encontro étnico, cultural e religioso, logo deve gerir uma série de novas situações que se não forem bem conduzidas, podem conduzir à marginalização e ao abandono escolar. Neste sentido, pretende-se uma educação para a promoção de valores de respeito, solidariedade, defesa dos direitos humanos e uma colaboração de todos os meios circundantes, e assim atingir os objectivos.
Na minha opinião, só através da educação inter/multicultural será possível combater os numerosos problemas que conduzem à diferença. Este tipo de educação funciona como o ponto de partida, o fio condutor de um percurso que procura responder e resolver problemas actuais, perante a diversidade de contextos sociais e escolares, que encontramos e deparamos, em todo o lado e a todo o instante, uma “aldeia global” em construção e mudança. Neste sentido, esta educação apoia-se nos princípios da democracia, igualdade e pluralismo e procura enriquecer o aluno, ao nível dos conhecimentos, competências e atitudes que lhe permitam agir e pensar dentro de uma cultura diversificada e competitiva.
Pretendo, que os alunos aceitem a própria herança cultural e que obtenham sucesso na escola e dentro da sociedade.
Todos temos direito à educação e o dever de respeitar o outro e ser respeitado. A escola é livre e igual para todos.
Temos todos, comunidade escolar, que investir nas pessoas, como fazemos com a tecnologia, porque existe soluções e muito a trabalho a desenvolver.
Apesar de tudo, como já referi, entendo que as quimeras são realizáveis, se acreditarmos na mudança e na continuação, se houver um bom clima de trabalho numa relação dialéctica ajustada e consciente.
Não podemos esconder a realidade, logo necessitamos de aprender a conviver com as nossas diferenças, respeitar e valorizar o eu e os outros.
Hoje, a escola não funciona como um depósitos de valores e conhecimentos, mas sim um espaço onde se partilha problemas, informações e procura-se soluções práticas e adequadas às necessidades do aluno, sociais, físicas e culturais. O professor é o gerador ou moderador da investigação e de abertura a novas questões e novos problemas.
Concluo, que através das diferentes actividades é possível despertar nos alunos, essa percepção que ultrapassa os limites, os estigmas tradicionais, activa consciências e desafios pertencentes ao mundo contemporâneo.

Bibliografia utilizada:
· MENDES, Maria Luísa Sobral (1999). "Forum. Escola, Diversidade e Cultura", Ministério da Cultura.
· PERES, Américo Nunes (2000). "Intercultural. Utopia ou Realidade?", Profedições, Porto
· SILVA, Maria da Conceição Gomes Lamela (2000). "O Elogio da Diferença", Departamento de Ciências Integradas e Língua Materna – Instituto de Estudos da Criança – Universidade do Minho – Braga.
. WYMAN, Sarah La Brec (2000). "Como responder à diversidade cultural dos alunos", Cadernos de investigação e prática, GRIAPASA, Porto.
Sofia Raquel Dourado da Torre

2 comentários:

AnaOliveira disse...

Sofia, na tua afirmação: "só através da educação inter/multicultural será possível combater os numerosos problemas que conduzem à diferença" eu diria antes "combater os numerosos problemas que conduzem à exclusão social e desigualdade de oportunidades", pois a diferença é precisamente o ponto de partida para a educação multi e inter cultural...

filomena disse...

Ana estou inteiramente de acordo.