quinta-feira, novembro 17, 2005

Haverá uma cultura portuguesa?

Esta é uma questão difícil de dar resposta pois as perspectivas podem ser diversas: A Cultura popular, A Cultura Académica (comunidade científica, literária, …), A Cultura como veículo (bebedouro) de arte ou erudição. Esta ideia de Cultura poderá ainda admitir outra frente – paralela – como a classista (estudo de classes, de géneros). Estamos no domínio das Ciências Sociais, Humanas e (ou somente) Culturais.
A visão de Homi Babha vem dar um novo significado a este termo, inserindo a ideia do hibridismo, transferindo, para o âmbito da cultura, a ideia de que todas as nações modernas são híbridos culturais.
No contexto da miscigenação e do hibridismo, tolerância e discriminação nem sempre estão em pólos opostos. As raças não são apenas construções sociais baseadas na aparência física e na descendência, mas resultam também das reivindicações e atribuições de identidades num contexto de relações de poder.
Pode-se dizer que Portugal e o português ocupam o terceiro espaço de Homi Bhabha nos fala em Mutlticulturalism, estando in-between, ou seja, são seres ‘entre’ qualquer coisa pois há uma grande contaminação não só provocada pelo indivíduo em si, mas também por tudo o que o rodeia. Pensemos no caso da colonização em que o colonizado adquire uma nova linguagem – a do colonizador -, mas também o colonizador adquire novas formas de contacto e vivências.
Os Portugueses, concretamente, desde a formação do Condado Portucalense até hoje, sempre tiveram diversas culturas a acompanhar a sua caminhada. Daí, fácil será concluir que não só “espalharam a fé e alargaram o império” como também trouxeram novos ensinamentos, novas experiências. Este intercâmbio tornou-se mais fácil através dos média que, actualmente proliferam.
Neste constante contacto quase já não sabemos se no Brasil se fala a Língua Portuguesa ou se em Portugal se fala o “Brasileiro”. Nesta questão linguística os neologismos/estrangeirismos são de tal ordem que o ambiente que se vive por vezes se torna estranho. A migração foi e é um factor marcante, tornando a sociedade uma miscigenação de culturas. Não quero por em causa as minorias que mais dificuldades têm em afirmar o status cultural, até porque serão a quota parte nessa mescla cultural, donde resulta um novo rosto social e artístico, no qual o academismo se deve entrosar. Esta novidade torna-se duradoura pela sua qualidade, afirmando-se no tempo, não significando por isso a perda de um passado, de uma herança. A Cultura, sem pensar nesse passado, será o que se projecta amanhã vivendo-se hoje.
Consciente de que a migração é uma situação cada vez mais real e de livre direito, concluo que as mudanças culturais serão uma constante e uma necessidade que facilitará a inclusão ou integração das minorias. Assim a cultura é episódica, temporal, pois nem mesmo o regionalismo prevalecerá pois o distanciamento social não permite a sobrevivência até de um povo. O factor económico é um elemento condicionante da cultura até pela vaga da World Culture que Eduardo Lourenço caracteriza (ver “A Europa e a Cultura"). Como ele também afirmo que Portugal não tem uma cultura própria, embora haja personalidades que se afirmem no mundo artístico, social, …
Miguel Vale de Almeida distingue três períodos distintos em relação ao caso português (tendo em conta a perda do Brasil e o interesse pelas colónias): a preocupação com a definição racial dos portugueses, contrária à miscigenação; as origens étnicas plurais dos portugueses à luz da experiência brasileira e o pós 1974.
Jorge Dias, no entanto, encara a unidade portuguesa como resultado de uma amálgama diversa e defende a distinção das diversas situações coloniais. Afirma que a criação do mestiço favorece o património genético do Homem e que o mestiço luso-tropical é o homem do futuro. Este cria uma etnogenealogia para os portugueses que lhes permite misturar culturas sem descurar a originalidade e antiguidade de cada um dos componentes.

Bibliografia matriz na questão da identidade nacional e cultura portuguesa:

- A Identidade Portuguesa, Faculdade de Letras de Coimbra, 1999 (Cadernos de língua e cultura portuguesas).

- ALMEIDA, Miguel Vale de – Um mar da cor da terra: raça, cultura e política da identidade, Celta, 2000.

- BRAGA, Teófilo – O povo português nos seus costumes, crenças e tradições, Lisboa, D. Quixote, 1985-1986.

- LEAL, João – Etnografias portuguesas, 1870-1970: cultura popular e identidade nacional, Lisboa, Dom Quixote, 2000.

- LOURENÇO, Eduardo – O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português, Lisboa, Gradiva, 2001.

- SANTOS, Boaventura Sousa – Portugal: um retrato singular, Porto, Afrontamento, 1993.
- Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade, Porto, Afrontamento, 1994.
- A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência, Porto, Afrontamento, 2000.

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