quarta-feira, novembro 09, 2005

Inteligência ou Inteligências?

Sabendo-se desde Aristóteles que somos “animais racionais” é, agora, inquietante e fascinante reconhecermo-nos não apenas como Freud afirmou “animais de sonhos e desejos” mas, sobretudo, “seres de corpo inteiro” onde a emoção é uma constituinte essencial a considerar.
António Damásio ao negar Descartes deu razão a Fernando Pessoa e desafiou-nos a revermo-nos enquanto homens/mulheres e a (re)considerar a nossa condição de seres onde a dimensão apolínea e dionisíaca se tendem a harmonizar em nome de um equilíbrio tão desejado e procurado. A ser assim, recuperar-se-á a dimensão do corpo, da alegria e da festa que o Ocidente em nome de uma “razão pura” teimou tragicamente em desconsiderar, castrando-nos (ir)remediavelmente. É pois tempo de escutar Damásio e proclamar consigo o “erro de Descartes” que considerou o homem como “substância pensante” reduzindo-o a “res cogita” e recuperarmos o “sentimento de si” que Espinoza brilhantemente intuiu e que Damásio retomou dando-lhe consistência científica.
A inteligência “está em voga”, é um assunto que merece assinalável interesse e atenção por parte da comunidade científica, escolar, familiar e publico em geral.
A teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner teve como motivação essencial o fracasso relativo que no campo da educação tiveram as aplicações dos modelos orientadores da aprendizagem e também dos testes psicométricos da inteligência. Este fracasso deve-se ao facto destas teorias considerarem o indivíduo como um organismo passivo que simplesmente recebe estímulos, aos quais responde de acordo com a sua história anterior.
A teoria das inteligências múltiplas revoluciona a tradicional noção de inteligência, abrangendo novos campos de intervenção, de exploração a nível escolar, empresarial, etc. As ideias de Gardner deram frutos nos Estados Unidos da América de tal modo que se criaram escolas, projectos educativos e até currículos escolares baseados nesta teoria. Muitas dessas escolas e projectos deram frutos com êxito, já que motivaram os estudantes a desenvolver habilidades específicas e a dar um sentido particular ao seu desenvolvimento intelectual.
O que provavelmente devemos reter da teoria de Gardner é que seria conveniente distinguir a inteligência em dois aspectos
- como capacidade ou aptidão, isto é, como a potencialidade global do sistema cognitivo próprio de cada indivíduo.
- como habilidade (“skill”) ou destreza, isto é, como uma competência desenvolvida pelo sujeito num domínio ou âmbito específico da actividade humana.
Os já polémicos testes de Q.I. ( que pretendem abordar a ”inteligência académica” )são, agora, uma medida de avaliação ainda menos capaz de por si só “dizer a inteligência” que supõe uma análise mais generosa e complexa relativamente às capacidades de cada indivíduo.
Uma das conclusões que podemos extrair da proposta de Gardner é a importância da variabilidade interindividual no rendimento cognitivo, ou seja, onde há um conjunto de indivíduos enfrentando tarefas concretas, como numa sala de aula, é interessante ver como a personalidade individual aflora em formas diferentes de reagir, actuar, resolver tarefas. Como Gardner recomendava numa entrevista, “ é necessário atender às diferenças individuais das crianças nas escolas e tratar de individualizar as avaliações e os métodos de instrução”. Também insistia em não etiquetar as crianças segundo as suas preferências já que, segundo ele, as inteligências são categorias para distinguir as diferenças nas formas de representações mentais, mas não são boas categorias para identificar como são (ou como não são) as pessoas. Pensemos nisto…

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