sexta-feira, novembro 04, 2005

Mu…dança!

Mu…dança!


O atelier que oriento semanalmente, chamado “artistas de palmo e meio”, está inserido no programa de A.T.L. da escola nº154, em Lisboa, sustentado pela Associação de Pais. Os ateliers são doze e as crianças vão rodando de três em três semanas. Sendo o meu de expressão plástica, existem ainda: o de música, de dança, da natureza, das lãs, da bujiganga, da animação, da escrita, da escultura, dos fantoches e dos jogos.
Todos os ateliers apelam à criatividade recorrendo, para tal, à experimentação de vários tipos de sensibilidades. De todas as crianças destacam-se com alguma facilidade aquelas cujo ambiente familiar e educacional tem estimulado o respeito e a importância das actividades criativas como a “simples” ideia de fazer um desenho. Esta semana uma menina de sete anos pintava com desleixe o desenho na fotocópia dos trabalhos de casa. “Aquilo” era chato e pouco importante visto que os trabalhos de casa já estavam feitos. Aí, um colega monitor disse: “Fazer ou pintar um desenho deve ter tanta importância como fazer uma conta ou ler um texto!”
Desde que frequento este mestrado que várias questões têm aflorado na minha cabeça. Vieram juntar-se a outras, já existententes, que cresceram como raízes, e consigo mesmo visualizar que se multiplicam agora e sem parar. Podemos perceber que actualmente existe uma enorme falha, “um grande buraco” na educação artística portuguesa. É também por isso que aqui estamos. Para não só pensar mas, e sobretudo, actuar mediante os currículos existentes, criando competências na educação. Neste contexto cultural – e Cultural(a cultura das elites) _ a natureza determinou o nosso desejo insustentável de felicidade. Ou seja, viver a parte poética da vida. Pôr em prática competências culturais significa assumir a sociedade contemporânea, da qual fazemos parte, e tentar resolver as questôes inimigas que não nos permitem crescer e desenvolver. É necessário tentar perceber a situação diferente de cada grupo social, local, regional ou mundial – sendo eu também membro de um grupo – sentindo que o papel do outro é exatamente o mesmo que o nosso enquanto ser natural e cultural.
Na base de todo o pensamento está a cultura, o conjunto de símbolos, valores e atitudes que me permitem comunicar dentro de um sistema aberto e em constante mudança. Tanto é que o nosso conceito de cultura actualmente já não é o mesmo que se praticava no tempo dos nossos pais. Assim sendo hoje queremos proteger o “eu”, mais do que nunca, e por isso é muito difícil para nós, enquanto seres culturais que somos, pormo-nos no lugar do “outro”. Mesmo sabendo que também nós temos esse lugar. A base é a mesma e estamos presos a ela! É através da prática artística que podemos mais fácilmente experimentar o papel dos outros, criar manifestações culturais e aproveitar as já existentes traduzindo-as no currículo escolar.
A menina do desenho deve ser encorajada na sua prática de sonho sem constrangimento percebendo aqui a inutilidade do julgamento. Experimentando, por esta via, a possível conduta da valorização dos actos em oposição à sua quantificação e qualificação. Movendo-nos com habilidade e sensibilidade a comunicar criando fluxos de conhecimento vamos envolver-nos mais com a vida, devolvendo-nos de forma mais completa àquele “eu” que urge dançar com e no mundo.

2 comentários:

Marta Pinto disse...

Habilidade e sensibilidade ao comunicar! Que bonito…obrigada Isabel, relembras neste post essa real necessidade. De facto muitas vezes, entusiasmados em dar voz ao nosso “eu”, esquecemo-nos do “eu” dos outros, e magoamos sem querer, e criamos situações em que o outro se passa a defender de nós em vez de querer continuar a comunicar connosco.

IsabelDomingues disse...

Sensibilizou-me o teu entendimento de «“dançar” com e no mundo». Vi-o como uma forma bastante expressiva de interpretar a evolução do pensamento e, por conseguinte, do desenvolvimento da cultura.
De facto, a mutação a que o mundo está exposto devido às complexas relações que se vão gradualmente processando entre os diferentes níveis dos saberes, dos valores, dos comportamentos, e das atitudes gera naturalmente um conceito cada vez mais diferenciado de cultura. E, segundo me pareceu perceber na tua reflexão, o conceito está actualmente muito individualizado. Nos dias que correm, estas relações se encontram quase inevitavelmente associadas a interesses e critérios cada vez mais economicistas e globalizantes.
Nas suas reflexões, Petrellla* (2000) está convicto que a educação, tal como ela se processa nos dias que correm, é o resultado de um engenho astucioso de “armadilhas” montadas por aquelas realidades e uma delas reside no facto de a educação ser “...apresentada como o instrumento-chave da sobrevivência de cada indivíduo…, a esfera educativa tende a transformar-se num «lugar» onde se aprende uma cultura de guerra (cada um por si, ser melhor sucedido do que os outros e na vez deles), mais do que uma cultura de vida (viver em conjunto com os outros, na prossecução do interesse geral)”.
O teu sentimento é, afinal, um sentimento comum a outros cuja luta é a promoção de uma cultura colectiva para o enriquecimento de culturas individuais e comunicativas e que não entendem o egoísmo que prolifera por esse mundo fora.
Partilho da opinião que a prática artística, em todas as suas expressões, deve ser trabalhada, desde tenra idade, promovendo uma integração mais humanizante dos indivíduos.
Neste contexto, chamo a atenção para o artigo que a colega Luísa publicou no passado dia 2 de Novembro com o título de “Currículo – Educação Artística”, onde, (pareceu-me claro!) pelo menos ideologicamente, as entidades responsáveis pela elaboração do Currículo Nacional de Ensino Básico, entendem a urgência e importância da promoção daquele tipo de ensino. No entanto, é a ti, a mim e a todos os educadores que, nos meios educativos em que trabalhamos, cabe o importante papel de fornecer a “música” para a activação daquela “dança com e no mundo” a que te referias.
Abramos as portas à experimentação e à partilha de experiências.
Ajudemos os nossos alunos a olhar o mundo, a senti-lo e a moldá-lo em barro, plasticina ou gesso, a expressá-lo em gestos ou melodias, a imprimi-lo em telas ou papel com mil cores ou em palavras na forma de narrativas ou poesia.
Cultivemos nas nossas escolas o gosto pela comunicação. Só assim é possível “aprender a capacidade de reconhecer o valor de qualquer contribuição de todo o ser humano (…) no sentido da convivência.” Petrella (2000)

* Riccardo Petrella - Conselheiro na Comissão Europeia e Professor na Universidade Católica Louvain (Bélgica)

Referência bibliográfica:

Petrella, Ricardo (2000) “ Cinco armadilhas para a educação”, Le Monde Diplomatique, 19, 14-15