segunda-feira, novembro 07, 2005

“Não há Integração Sem Laços Afectivos”

De acordo com a proposta do Professor Varela, apresento neste post a diversidade cultural, vista e narrada no Courrier Internacional Nº 31 – 4 a 10 de Novembro de 2005 (p.24 e 25). Dos artigos publicados irei centrar-me sobre “Não há integração sem laços afectivos” – de Bhikhu Parekh (filósofo indiano residente no Reino Unido, professor na London School of Economics, membro da Câmara dos Lordes e especialista em sociedades multiculturais) – pois considero que vai ao encontro das temáticas trabalhadas na unidade curricular Currículo e Cultura, e também por abordar uma problemática tão actual e com repercussões tão fortes na sociedade contemporânea.

A diversidade cultural é um produto de vários factores, tais como: a valorização do indivíduo e o “declínio do consenso moral e tradicional, a diversidade étnica e religiosa, a globalização e a imigração”. No que refere à imigração, pois é sobre ela que o artigo se debruça, não constitui “apenas uma fonte de diversidade cultural (…) e seria falso pensar que antes das grandes migrações, a sociedade era culturalmente homogénea.”
O acolhimento dos emigrantes pode ser visto de diferentes formas: assimilacionismo (defende que se querem ser aceites, os imigrantes “devem fundir-se na cultura nacional e guardar fidelidade exclusiva ao país em que se estabeleceram” (…) caso escolham “conservar a sua cultura e manter laços estreitos com os países de origem, não se devem queixar se o resto da sociedade se recusar a identificar com eles e lhes reservar um tratamento desigual”); o integracionismo (“sublinha a importância de uma cultura comum, mas admite que o processo possa ser de sentido duplo e que o país de acolhimento se adapte até certo ponto aos recém-chegados”); e os defendem o princípio da igualdade e da cidadania, segundo os quais ”uma comunidade política é uma associação voluntária de cidadãos livres e iguais cuja coesão é garantida por princípios de justiça consagrados pela autoridade pública e um regime de direitos e deveres. “Contudo, a cidadania não se resume a direitos e deveres” (…) “ser cidadão implica manter uma relação com o passado e o futuro dessa comunidade (…), pelo que uma comunidade política necessita de um sentimento comum de pertença, uma identidade colectiva partilhada e um certo grau de envolvimento e adesão comuns.”

Uma sociedade não se pode resumir a um grupo de indivíduos que vivem juntos, mas “representa um modo de vida complexo” (…) e, na medida em que as suas identidades, vidas e histórias pessoais estão intimamente ligadas à sua sociedade, os indivíduos mostram-se legitimamente possessivos e protectores em relação a elas.” Mas essa sociedade também pertence aos “imigrantes que nela se vieram estabelecer e é a pátria dos seus filhos”, o que despoleta um “empenhamento moral e afectivo”. Pelo que os imigrantes se deveriam identificar e apropriar da cultura dessa sociedade e aceitar as responsabilidades e obrigações que daí decorrem, o que não implica “cortar as pontes com os seus países de origem”. As actividades culturais fazem parte das escolhas individuais e são do foro privado, pelo que não devem ser sujeitos a “obrigações legais ou a pressões sociais”.

No entanto, é necessário que os imigrantes adquiram competências culturais para intervir na sociedade, nomeadamente aprendendo a língua, conhecendo as “regras de cortesia e normas de comportamento vigentes e familiarizar-se com as tradições, história e modo de pensar.” A negação deste processo, traduzida na falta de interesse e esforço na aquisição de “competências culturais, manifesta falta de respeito pela sociedade e cria sérias dificuldades aos próprios imigrantes”, nomeadamente, pela dificuldade de se fazerem entender e serem representados por outros, com melhor capacidade comunicativa, mas que agem de acordo com interesses políticos e culturais…

Contudo, também a sociedade de acolhimento deve “assumir compromissos em relação aos recém-chegados”, começando a nível local. A escola e seus parceiros, representam aqui um papel fundamental, favorecendo a criação de um sentimento comum de pertença. Como? Ensinando a história, a cultura e tradições da sociedade que acolhe, tal como da que chega, evitando, também, a ruptura geracional e reduzindo os tabus relativamente à escola.
A aproximação com vida colectiva da sociedade que acolhe é, muitas vezes, intensificada com o nascimento de filhos, pois até então, os imigrantes da 1ª geração manifestam-se um pouco reticentes na integração, como que receando perder a sua identidade cultural. Esta aproximação será mais efectiva se a escola desenvolver a interculturalidade, eliminando barreiras do âmbito cultural, social e religioso e promovendo o sentimento comum de pertença.

O papel do estado na explicação aos cidadãos da “obrigação moral e jurídica de acolher refugiados em situação de desespero e porque é do interesse do país dar-lhes toda a ajuda de que necessitam para se instalarem” (…) assim como apoiar na distinção “entre inquietações legítimas suscitadas pelos imigrantes, e reacções racistas de rejeição – as primeiras devem ser apaziguadas e as segundas combatidas”. A não “atenção às angústias e legítimos receios”, o impedimento de “se expressar em nome do politicamente correcto”, vai originar e reforçar frustrações que podem transformar-se em manifestações desagradáveis e indesejáveis. É difícil definir o limite e o racismo assumido, no entanto, pode-se ultrapassar isso com o “laço afectivo”, estabelecendo uma “ligação à comunidade e ao próximo” (…) reconhecendo-se mutuamente como membros da mesma comunidade.

“A identidade de uma sociedade tem uma dimensão intelectual bem como afectiva; e vai beber na sua história, nos seus valores, nos seus princípios constitucionais e nas suas instituições políticas, bem como nos símbolos”.

Para concluir, “a integração é um compromisso permanente entre uma comunidade de acolhimento e aqueles que nela se instalam. Não um jogo de poderes em que uma cultura dominante procura anular a outra que, por sua vez, tenderá a fechar-se em concha.”

5 comentários:

filomena disse...

Ana este artigo é excelente, mas esperava que fzesses um trabalho/reflexão menos exaustivo.
Apesar do referido, suscitou-me interesse acerca da importância da afectividade no campo da educação, pelo que farei de seguida um post.

AnaOliveira disse...

De facto é extenso e exaustivo... Ainda assim, fiz uma triagem da informação... Foi difícil, para mim, abordar de forma o mais completa possível, temendo a omissão de dados relevantes nesta abordagem à imigração que me parece muito realista e contemporânea... basta estar atento aos diferentes meios de comunicação...

Relativamente à afectividade no campo da educação, parece-me que tal como os imigrantes se integram melhor ao conhecerem e tomarem parte na sociedade onde são acolhidos (e vice-versa) também, na escola, as crianças têm mais sucesso nas suas aprendizagens se participarem activamente na construção do currículo e mantiverem relações de reciprocidade com toda a comunidade educativa... Reforça a sua identidade e desenvolve o gosto de respeitar e cuidar do que é SEU (individual e grupalmente)!

filomena disse...

Estou a tentar postar um comntário e não entra. teste

filomena disse...

Ana concordo contigo e acredita que eu não teria feito melhor.
Quanto à importância da afectividade na educação eu pretendia abordar o foro emocional já que o considero de extrema importância.
Já pensaste concerteza o quanto é importante os professores terem a capacidade para identificar o estado cognitivo/emocional dos alunos, sendo esta uma base imprescindível para os apoiar e dar as respostas mais adequadas?
Assim é-lhes proporcionada uma aprendizagem eficiente e com prazer.

Delfim Peixoto disse...

Deixem-me só reforçar uma frase da Ana: "...a sociedade de acolhimento deve assumir compromissos em relação aos recém-chegados"...!
De facto, tudo seria diferente e mais proficiente...parabéns, Ana