terça-feira, novembro 22, 2005

O processo de avaliação

Ápos alguma investigação sobre a avaliação, decidi escrever um texto sobre o que entendo ser a avaliação. No entanto, tenho consciência das dificuldades e dos dilemas que nós professores nos deparamos diariamente. Espero que este texto suscite interrogações e alguma discussão.
Começo por dizer, que a avaliação permite constatar se a escola encontra-se ao serviço dos alunos e se procura responder aos problemas das crianças, provenientes de meios familiares e culturais diversificados, ao nível dos afectos, educação, comportamentos, capacidades, competências, valores éticos e morais, nos diversos contextos sócio-culturais e económicos.
O professor não deve julgar, mas sim educar, conduzir e guiar os saberes e as aprendizagens das crianças, com afectividade, tolerância e compreensão.
É errado rotular a criança em função de registos escritos, gráficos e estéticos produzidos por ela. Não se avalia a beleza, nem o gosto, no entanto devemos ajudar a criança, durante o processo, dar a oportunidade de conhecer e experimentar materiais e técnicas novas.
No fundo, a avaliação não é o resumo ou a soma das fichas escritas, mas sim o processo contínuo dos saberes e das aprendizagens, atitudes, conhecimentos e procedimentos, ao longo do tempo.
Quando falo de avaliação, incluo a nossa avaliação, as nossas competências e a dos colegas, dos órgãos de gestão, a estrutura escolar, os programas e os currículos. Neste sentido, digo que a avaliação é ambígua, pois pode gerar confusão e alguns dilemas, por parte dos responsáveis, então à que gerir, entre todos, de forma assertiva, através do diálogo e do entendimento mútuo. Devemos ensinar primeiro, as crianças a falar e depois a pensar.
Um professor eficaz e consciente é aquele que dialoga constantemente com a criança que foi, é aquele que consegue imaginar-se no outro, nomeadamente na criança que se apresenta diante de si, com características semelhantes às suas.
“O essencial é, sem dúvida, perceber (o que não é simples nem fácil) que imaginar o outro (…) é de facto imaginar-se a si mesmo,(…)” (JEAN,1990,50)
A avaliação não pode ser encarada como uma questão técnica e de carácter subjectivo, porque necessita de uma preparação prévia por parte do professor. Entendo que a avaliação não é o fim, mas sim o meio…, do processo de aprendizagem e formação do aluno. A avaliação funciona como o guia orientador das aprendizagens úteis e enriquecedoras, para a formação do seu eu, pessoal e social.
A avaliação é uma metodologia de investigação, um instrumento que origina um novo conhecimento, uma nova aprendizagem.
É um ciclo de aprendizagens contínuas, em constante adaptação e acumulação.

Referências Bibliográficas:
AA.VV. (2003). Avaliação no Ensino Básico, Porto. Editora: Livro Auxiliar.
JEAN, Georges (1990). Cultura Pessoal e Acção Pedagógica, Lisboa: Edições Asa, 1ª ed.

10 comentários:

AnaOliveira disse...

Sofia,
De facto a avaliação é crucial no processo de ensino-aprendizagem... pelo que deve abranger todos os intervenientes no sentido de optimizar os recursos educativos (humanos e físicos).

Contudo, relativamente a dizeres que a avaliação é ambígua, penso que isso só acontece se não forem definidos os critérios de forma fundamentada, séria e responsável.

A propósito do teu post achei oportuno transcrever as seguintes citações de Patrício, Manuel (2001, p.239/240) "educar não é ensinar, educar é levar ou ajudar o outro a aprender. O ensino não faz sentido por si. Ensina-se para..."; "pode dizer-se que os sistemas educativos são, na sua verdade profunda, sistemas de ensino. Não são sistemas de aprendizagem; A educação do homem está atrasada por este facto, por esta razão; Não temos os sistemas educativos organizados como sistemas de aprendizagem" (...) "com efeito, a aprendizagem não se faz sem ensino"...

. Patrício, Manuel Ferreira (2001). “Escola, Aprendizagem e Criatividade. Colecção Mundo de Saberes 28”. Porto: Porto Editora.

AnaOliveira disse...

Há uma afirmação no teu post que me levantou algumas dúvidas... e que se refere a "devermos ensinar primeiro, as crianças a falar e depois a pensar"...

Penso que falar/comunicar é um processo indissociável do pensamento... constituindo o diálogo, uma das estratégias que devemos utilizar para estimular o pensamento, o espírito crítico, a auto-estima, etc., da criança.

Hildeberto Peixoto disse...

Penso que este tema, que se não me engano apenas foi abordado neste blog uma vez (Avaliação – Avaliação dos alunos – 12/10/05) pela Maria Jorge, é de estrema importância e complexidade para todo o sistema educativo, devendo, por isso, ser muito reflectido por todos nós.
Como já aqui foi referido, adoptando-se uma pedagogia que considera a diversidade e originalidade de cada aluno, a avaliação assume um papel primordial como instrumento verdadeiramente potenciador da aprendizagem. Mais do que transmitir conhecimentos, importa saber seleccionar esses conhecimentos, sendo capaz de estimular no aluno o gosto pela aprendizagem, propiciando-lhe novas formas de aprender, levando-o a encontrar formas diversas de o fazer e que mais se adaptem aos seus gostos e potencialidades, promovendo a auto-reflexão, fomentando o espírito crítico… importando ao professor saber porque razão o aluno errou, analisando a causa do erro cometido.
Assim, é fundamental encontrar os meios mais adequados para se atingir a eficácia dos resultados, sendo necessário identificar os pré-requisitos dos alunos face ao que se lhes quer ensinar e se pretende que eles aprendam (avaliação diagnóstica).
Penso que é importante adoptar-se uma avaliação em que se valorize o processo sem, no entanto, esquecer o produto - objectivo último da aprendizagem. Deve ser valorizada uma avaliação contínua, procurando melhorar as condições e modalidades de aprendizagem, implicando o aluno na construção da sua aprendizagem, respeitando aspectos como a integração (em trabalhos de grupo, por exemplo), a cooperação ou aspectos que revelem o desenvolvimento da capacidade de investigação ou de respeito pelo outro… aspectos que conduzem à autonomia e ao crescimento pessoal.
Uma avaliação conjugada entre professor e aluno exige registos sistemáticos da mesma, acompanhados de discussão, de comunicação constante, para que se esclareçam todos os passos dados e os que faltam dar. Essa forma de registos deve ser tão completa quanto possível para que forneça todos os elementos necessários a uma correcta avaliação, que, tendo por base conhecimentos e competências a revelar pelo aluno, determina em que medida ele satisfaz os critérios previamente estabelecidos. Esses registos de avaliação devem contemplar, para além dos aspectos do domínio cognitivo, todos os outros relacionados com os domínios das capacidades e competências, bem como das atitudes.

PAIS, Ana (1996), "Avaliação – Uma Prática Diária", Editorial Presença, Lisboa;
CUNHA, Adérito (2001), "A Avaliação da Aprendizagem dos alunos do Ensino Básico, Análise Comentada de Despacho Normativo n.º 30/2001", Asa Editores II, S.A; Porto;

sofia disse...

Em relação aos comentários, tenho de agradecer a contribuição, a participação, o diálogo, dos colegas que colaboraram e expressaram opiniões pessoais e baseadas em autores, especialistas no assunto.
Quero explicar a frase que siscitou alguma interrogação na colega Ana Oliveira.
Claro que falar e pensar são processos indissociáveis, mas o que eu pretendo dizer é que uma criança não consegue pensar, se não fala sobre o que lê, interpreta, percebe e "descodifica" objectivamente e subjectivamente a realidade, para depois fazer juízos de valor, mais conscientes, críticos, criativos e defensivos.

AnaOliveira disse...

Hildeberto, para além a Maria Jorge, também abordei a avaliação num outro momento... Concordo contigo que é um tema de extrema importância e complexidade que merece toda a atenção e reflexão.

Sofia, penso que a interpretação que fiz da outra frase não correspondeu ao que querias dizer. Concordo com o que referes no final deste teu comentário.

Hildeberto Peixoto disse...
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Hildeberto Peixoto disse...

Ana, desculpa não ter referido a tua abordagem acerca deste tema, mas não foi por mal… eu tinha a sensação que, para além da Maria Jorge, alguém tinha abordado este tema mas não encontrei esse post e por isso não o referi. Não me leves a mal…

AnaOliveira disse...

Hildeberto... porque haveria eu de levar a mal...??!!! O blog é tão extenso e a nossa memória tão falível, que é impossível lembrarmo-nos de tudo. Não concordas?

AnaOliveira disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
AnaOliveira disse...

Ainda a propósito da díade pensamento/fala e penso que de acordo com a que Sofia estava a querer referir e eu interpretei de forma errada:

Segundo Vygotsky in Fróis, J.P. (2000, p.196), "grande parte do pensamento depende efectivamente da linguagem. O pensamento nasce com a linguagem...", daí a importância da verbalização e da construção significativa dos significados, de acordo com o que sentimos e vemos...

Fróis, J.P., (2000) Educação Estética e Artística, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.