quarta-feira, novembro 23, 2005

O visível e invisível no corpo



Parto para esta análise comparando o Homem ao Iceberg.
Para falarmos do Visível e Invisível duma cultura seja ela qual for, não podemos alienar dos diferentes mundos em que o Homem navega, o mundo da razão, o mundo das emoções, por vezes fundem – se os dois mundos e temos o Homem criador, o artista, o crítico, a tolerância, a multiculturalidade; a fusão perfeita para estabelecer a ponte entre cultura e arte.
Este texto de Jorge Olímpio Bento parece-me ilustrativo e fala-nos,

Em Nome do Corpo
“ Porque pessoas e culturas concretizam a sua moralidade no comportamento corporal. Porque os escravos, perseguidos, humilhados e ofendidos recebem os estigmas da opressão no arruinamento do seu corpo. Porque a liberdade é feita de corporalidade, de carne espessa, visível e sensível, viva e colorida, intensa e quente.
Ainda hesitei fala-vos dele. Do sustentáculo do olhar, dos gostos, dos sentidos, das noções, das sensibilidades e sensualidades, e até das malícias da vida. Mas Humboldt ergueu-se da tumba a relembrar-me o “ Homo mundanus “e a “alteridade” imprescindível do mundo, do “não-eu”, para o sujeito. Atirou-me à cara que a corporalidade é o órgão e o fundamento do acontecimento estético na formação, o mediador entre o Eu e o mundo. E repetiu, até a exaustão, que a corporalidade é um pilar central no edifício da formação do homem como espécie, como sujeito, como história, como cultura
.”
.

Patrício, Manuel Ferreira, Nov./97, A escola Cultural e os valores, Porto Editora

3 comentários:

AnaOliveira disse...

Paula, estava a pesquisar para o trabalho da unidade curricular de "Educação Estética na Infância" e deparei-me com uma citação que me fez "viajar" até ao teu post. Por isso resolvi transcrevê-la!

"A Arte dá-me a oportunidade de viver várias vidas em vez de um só e, consequentemente, de enriquecer a experiência da minha vida real, de me unir a partir da interior com outra vida só com essa finalidade e em benefício do seu significado vital."

(Bakhtin, 1979) in Fróis, J.P., (2000, p. 131) Educação Estética e Artística, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

antónio rui disse...

PAULA:)
O CORPO -FANTÁSTICO TEMA PARA AQUI APONTADO.

o sujeito é o curriculo e os sujeitos sao a cultura, assim permite-me este desvaneio, coerente ou descoerente ao teu post:

O corpo:
O corpo passa agora a ter um carácter que se cataloga como “matéria plástica” moldável, sempre receptiva a transformações para acompanhar modas, tendências, inquieto por questões ou mesmo ainda irónico com as anteriores.O corpo é já como o “ar” na nossa sociedade, é já virtual dado a sua permanente existência. Desde sempre foi político, social, físico, belo, amorfo, frágil, tal como foi o contrário disto tudo e muito mais. É existência pura, e por isso deixa de existir, deixamos de o assimilar como é, fazendo nele e com ele novas experimentações para nos auto-satisfazermos e assim tentar torná-lo realidade. Sempre assim foi mesmo desde a primeira vez que surge o “corpo-contemplação” numa primeira imagem do corpo desnudado. Uma representação de algo existente que passa a ter carácter virtual e vice-versa, que desperta novos prazeres ao usufruidor da imagem, tal como ao seu proprietário quando se contempla com esta distância e se satisfaz com a própria imagem. Toda esta redundância nada mais tem que ver se não mesmo com o facto de procurarmos incessantemente o nosso próprio prazer, o prazer da própria imagem e dar aos outros aquilo que realmente entendemos, julgando sempre que o que nos preocupa é uma inquietação comum. Por todos percorrermos caminhos diferentes e por sermos abonados de características distintas, a mesclada de imagens corporais tende a seguir uma linhagem cada vez menos aproximada uma da outra. Uns procuram modelos e cânones, outros contrariam-nos e criam o seu próprio, uns ainda debruçam-se sobre estes assuntos teorizando o desenvolvimento do corpo, e outros ainda pragmatizam as questões via experimentação plástica até demonstrarem a si mesmos e aos outros que a solução é mesmo apenas o levantamento de questões que o corpo de ”hoje” proporciona.Para além de uma reflexão pessoal, é justamente como este último grupo de questionadores que tentarei explorar as inquietações, incógnitas e soluções encontradas a toda esta teorização que cada vez mais se faz levantar sobre o tema “Corpo”.fragmentado: A fragmentação do corpo é algo que a realidade de hoje usufrui como foi desde sempre, quer nos primórdios da representação plástica, quer na representação mais actual das artes como o cinema em suma- culturalmente. A fragmentação do corpo, que desde o seu simbolismo de “castigo” ou “alcance do imaterial” de Deus, até ao visionamento futurista de que as partes podem ser autónomas, como é espelhado na ficção, é um percurso a que se assiste.O corpo é uma unidade que se faz conectar com o mundo tal como ele é, é uma unidade dada ao exterior que ocupa o seu espaço como o espaço que ele mesmo usufrui.

Somos o receptáculos do tudo e do nada.

IsabelDomingues disse...

Paula, no passado ano lectivo frequentei uma Acção de Formação, no Porto, no Centro de Formação de Associações DIDASkÁLIA, designada de “Arte e Ambiente”, onde por orientação da formadora acabei por estudar um movimento que me era (em boa verdade) completamente desconhecido (conotava-o de “modernice”) – “A Arte Conceptual” – e tive a feliz oportunidade de “descobrir” (sim, porque apenas o conhecia de nome) Alberto Carneiro, importante referência no contexto deste movimento artístico em Portugal.
A tua reflexão sobre “o corpo” trouxe-o à minha memória e impeliu-me a citar alguns dos seus pensamentos como forma de complementar a informação que partilhaste connosco relativamente à totalidade que é a cultura na forma corporizada das suas manifestações:

“Afinal saí já pelo meu corpo. Corpo e mente. Unidades de corpo. Ela nele e ele por ela. Desenvolvimento para o cosmos. Sabedoria e conhecimento. (…) Pela meditação o corpo é. Por ela, ele não elabora, penetra, desvenda para além da consciência do que nele se perceba. Por ela, ele vive a sabedoria e o conhecimento nas três fases da revelação da obra. Apropriação, nominação e posse. Apropriação, reflexo supremo de identificação pelo possuído. Nominação, entrega pelo entendimento da essência da coisa apropriada. Posse, descoberta do ser do artista pelo ser da obra e revelação da obra como ser.”
Alberto Carneiro

Interpreto, talvez de forma muito subjectiva, que o artista, ao referir-se ao processo de construção da sua obra, se entrega à meditação das relações que “movem o mundo”. Sinto nas suas palavras uma séria atitude de escuta, observação, compreensão, aceitação e integração neste mundo em evolução, a partir do entendimento de si.
Mais uma vez vejo aqui explícito o importante papel das vivências significativas na construção do ser individual e colectivo e por consequência da cultura.
Daquele comentário, as três fases da revelação da obra do artista encerram, na minha modesta opinião, significados profundos: quando Alberto Carneiro se refere à apropriação transmite a consciência do seu ser como ser dotado de sabedoria e conhecimento ganhos no cultivo de relações culturais e multiculturais, pois mais atrás se reconhece como indivíduo pertencente a um cosmos em desenvolvimento; na fase da nominação, esclarece a necessidade de se interiorizar uma postura de abertura para a compreensão e aceitação da diversidade, colhendo do que se recebe os “nutrientes” mais importantes e motivadores do desenvolvimento; na última fase, da posse, revela uma relação dinâmica entre artista e obra, sob a forma de expressão plástica individual onde manifesta a emergência de criar um código de comunicação particular mas rico de interpretações onde toda a sua realização mental se encontre em perfeita harmonia com o mundo a que pertence.

Referência bibliográfica:

CARNEIRO, Alberto (2005) Caminhos do corpo sobre a terra:1965-2004, Catál. Expos.: Galeria Fernando Santos. Porto.