quinta-feira, novembro 03, 2005

Olhares sobre a multiculturalidade

Relativamente ao tema da Multiculturalidade gostava de propor uma reflexão relacionada com a seguinte questão:
Até que ponto a carga cultural que cada indivíduo transporta, inserido num “meio multicultural”, é factor de promoção enquanto cidadão ou é factor de aniquilamento enquanto membro de um grupo.
Esta questão, que considero premente, remete-nos para o problema da formação das “minorias culturais”, sendo que, o termo mais apropriado, será, na minha opinião, “Guetos culturais”.
De facto, as sociedades ocidentais promovem, a coberto de uma política de protecção de minorias, a formação de grupos culturalmente demarcados; (e.g. Ciganos, Africanos, Asiáticos, etc. ) com uma marca identitária que, umas vezes é religiosa, outras é cultural ou de qualquer outro tipo.
Esta marca, faz com que o cidadão deixe de ser membro de pleno direito, integrado numa sociedade livre, regida por regras universais,( por exemplo a Declaração Universal dos Direitos do Homem), logo aplicável de forma indistinta a qualquer indivíduo independentemente da raça, credo ou sexo, e passe esse mesmo grupo a ser o “dono” do indivíduo, mantendo-o refém da sua marca cultural, religiosa, histórica ou outra.
A este propósito gostava de citar um pequeno texto de um escritor Libanês Amin Maalouf, que sintetiza de forma clara esta questão:

As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: « Se te libertas morres!». As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não.”

1 comentário:

IsabelDomingues disse...

Bem, Inês, não somos árvores, é certo! Compreendo perfeitamente o que o autor quer dizer com aquela afirmação, mas se reflectirmos um bocadinho mais no seu conteúdo, penso que ela encerra uma realidade um pouco mais profunda.
Concordo que as árvores precisam das suas raízes e que a elas têm que se resignar, mas e nós, seres humanos? Apesar de não termos que nos resignar, podemos esquecer e desligar-nos completamente das nossas raízes? Não serão elas o ponto de partida para “novas conquistas culturais”?
As árvores estão realmente presas à terra, mas os seus troncos, ramos e copas frondosas não traduzirão, de certa forma, uma espécie de libertação daquela “situação de cativeiro” que parece que as condicionam?
Considero que, no que à condição humana diz respeito, as suas raízes constituem o material informativo primário que potencia a evolução para estádios culturais cada vez mais enriquecidos. No entanto, aquilo que expressas na tua reflexão relativamente à existência de diferenças evidentes entre culturas transmite um pouco a falta de abertura (um certo egoísmo, até) do Homem em aceitar a diversidade (e que, na minha opinião, se tem vindo a alargar devido à globalização).
Sou filha de um pai que durante alguns anos se dedicou à agricultura e pude constatar que o “convívio” de certas espécies vegetais não limitava os seus individuais desenvolvimentos, mais bem os promovia. E continuavam presas às suas raízes, mas o que delas brotava permitia a evolução de características específicas que as tornavam compatíveis. No caso do ser humano existe uma condição que é a predisposição para aceitar ou não a diferença. Essa, é o produto de uma educação a que se encontra sujeito, primeiro no seio da família e depois da comunidade e sociedade em que se desenvolve. Se na raiz dessa educação for promovida uma mentalidade de intolerância face a situação culturais diferentes, é muito provável que se manifestem problemas de compreensão, aceitação e integração da diversidade que se apresenta. Neste caso, não estará o homem também inevitavelmente preso às raízes?