sexta-feira, novembro 04, 2005

Promoção da Cultura e Novos Públicos

A minha reflexão surge a propósito do que temos vindo a falar e do que foi notícia na semana passada, intitulada “Concerto para Bebés”, realizado desta vez na Casa da Música, no Porto. Esta actividade levou-me a reflectir sobre o quotidiano que vivo profissionalmente, onde me deparo com as dificuldades de aprendizagem e de integração, a dislexia, … Associando o evento a tais problemas, as questões facil e repetidamente se levantam:
- Que educação básica é dada às crianças desde a sua tenra idade?
- As que têm, estão expostas a que currículo, a que experiências para o seu desenvolvimento equilibrado, global?
- Que formação a dos seus educadores na área das expressões, nomeadamente a musical?
- Não haverá nestas crianças uma minoria que desde o ano zero começa a ser excluída?
Começo por expor brevemente a actividade referida e que se inclui num projecto que veio de Leiria, embora actividades deste género, baseadas ou não no método de E. Gordon, já se tenha realizado noutras localidades, como por exemplo em Lisboa. Em suma, esse projecto

“é um evento musical que apaixona e encanta o público de todas as idades mas de uma forma muito especial, os de tenra idade (3 meses aos 5 anos). Paulo Lameiro, Saxofína e Amigos oferecem emoções sonoras em concertos dedicados aos maiores especialistas na audição, os bebés. É a fruição musical e a experiência emocional partilhada entre intérpretes, bebés, pais, irmãos e avós que alicerça este programa.
Os concertos têm como matriz a chamada música erudita, mas desenvolvem-se, também, numa pluralidade de horizontes musicais recheados de temas tradicionais, de pop-rock ou de improvisações vocais-instrumentais com a participação de todo o público. Cada concerto é uma experiência de cumplicidade, onde os sons e os silêncios a todos surpreendem” (in: Página da Casa da Música, Internet).

É agradável observar ou até somente ler a reacção das crianças a tais vivências. Pelas suas atitudes se confirma a disponibilidade total que têm para a audição e a eficiência deste momento de aprendizagem que lhes estrutura o pensamento com novas situações que lhes despertam aptidões e de que a música está próxima, é o homem que a faz e a transmite. Muita curiosidade e muitos porquês ficam satisfeitos. A atenção, a coordenação visual e motora, a lateralidade e a espacialidade ficam desenvolvidos como antídotos para mazelas futuras.
Então, um problema de imediato se levanta pois esta forma de educar custa dinheiro (3 euros), e, por isso, toca só nas elites, não só pelo custo mas também pela distância: A Educação é uma questão de minorias ou de maiorias?
Vou concretizar um pouco o meu pensamento com alguns tópicos que poderão pelo menos despoletar um posicionamento crítico perante a questão da inexistência de oportunidades musicais para as crianças do Infantário (desde o berçário) até ao 1º Ciclo inclusive). Considero que esta oportunidade não se limita a uma canção para a festa do Natal ou para abordar o Dia da Árvore. Então, pelo que resumidamente foi apontado, penso ser urgente:
1 - A realização de convénios entre as escolas dos Agrupamentos Verticais, e as Escolas de Músicas, que visem a elaboração de programas concertados para o desenvolvimento de competências musicais; que levem às escolas mencionadas um momento musical (um procedimento semelhante ao que se vai verificando com a Educação Física e o Inglês);
2 – A elaboração de uma planificação que possibilite uma vivência musical ao seu público-alvo, com uma certa frequência, semanal, mensal ou …,;
3 – Que haja o assumir de encargos por parte das entidades responsáveis pelo bem dos cidadãos, não atribuindo ao Encarregado de Educação, custos desmotivadores ou dificultantes de posturas cognitivamente e socialmente enriquecedoras para os seus educandos.

Em conclusão, verifico que, como tantas árvores que inclinadas pelo vento ou pela mão malfazeja do homem começam a crescer deficientemente, também a criança desde tenra idade necessita de um apoio para o desenvolvimento consistente e adequado que fará com que a sua realização futura, pelo menos, não seja tão acidentada. A música em particular, e as artes em geral, têm a capacidade de desenvolver a coordenação, visual e motora, e a estruturação mental, até como “terapia preventiva”, para tantos aspectos deficitários que mais tarde se revelam nas tarefas de ensino-aprendizagem, como os supra citados. São esses problemas que conduzem, quantas vezes, no insucesso e abandono escolar, situações frustrantes para tantas crianças, porque só amanhã (tardiamente) se procura dar soluções através de medidas educativas especiais (como o apoio à dislexia, etc.).
Tudo isto é uma questão de currículo, de cultura e de competência cultural, nos que determinam (poder político) e nos que executam (professores) os processos de aprendizagem.
Julgo que aqueles que perseveram numa atitude de formação contínua revelam um certo inconformismo tendente para alterações na manifestação cultural que vão protagonizando com os que nela representam.
Para todos um bem-haja, porque também me sinto incentivado.

3 comentários:

Delfim Peixoto disse...

Há neste teu espaço de exposiçaõ muito que comentar e possivelmente seria muito difícil fazê-lo aqui...talvez na aula o Professor nos dê algum tempo.
a questão das centralidades culturais já foram por mim colocadas no meu 1º ou 2º post. Acho que também já tinhamos comentado o acesso à cultura, acho que numpost da Rosa,
No entanto penso que tiveste uma boa ideia em levantar novamente a questão

AntonioPacheco disse...

A Expressão Musical no Jardim de Infância e a Educação Musical no 1º Ciclo do Ensino Básico, deverão ser ministradas por profissionais devidamente habilitados, uma vez que os professores e educadores destes níveis de ensino não estão devidamente habilitados na área artística em questão. Neste contexto, as Escolas Vocacionais de Música poderão e deverão celebrar protocolos de colaboração com as escolas do ensino básico e pré-escolar, ao abrigo do despacho 187/ME/91.

AnaOliveira disse...

De acordo com as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar (1997, p.64) "a Expressão Musical está intimamente relacionada com a educação musical que se desenvolve, na educação pré-escolar, em torno de cinco eixos fundamentais: escutar, cantar, dançar, tocar e criar".

Neste sentido, considero (de acordo com a formação inicial que tive na Escola Superior de Educação do Porto, e com outras formações que procurei...) que há saberes que servem de base a aprendizagens mais específicas que podem e devem ser trabalhados pelos educadores de infância, nomeadamente ao nível da exploração, identificação e produção de sons e ritmos... à construção criativa de instrumentos musicais... construção de uma "sonoteca" (gravação de sons do quotidiano e catalogação, etc.)... ao contacto com diferentes géneros musicais, etc...

No entanto, estou PLENAMENTE de acordo contigo relativamente à necessidade da intervenção de professores habilitados, não só na área da Música, mas também noutras
áreas (directamente com ss crianças e no apoio aos educadores para a articulação dos saberes).