quinta-feira, novembro 17, 2005

A propósito de visível e invisível...

A propósito do visível e do invisível que temos andado a tratar nas últimas aulas de Currículo e Cultura, tenho andado a sorver informação de algumas leituras relativas ao assunto e deparei-me com duas expressões que creio ter sentido serem integradas e entendidas no contexto dos assuntos abordados : uma diz respeito à de inteligência emocional, termo que, segundo Ivete Azevedo, foi introduzido pelos investigadores Peter Salovey e john N. Maye em 1990 e a segunda, literacia emocional que tem vindo a ser desenvolvida como tema de estudo no campo da psicologia e alargada a outros campos nomeadamente ao das Ciências da Educação.
De uma forma geral, segundo Azevedo, a primeira é definida pelos seus percursores como “ um conjunto de competências que envolvem a habilidade de identificar e motorizar os seus próprios sentimentos, assim como os dos outros, usando-os para orientar o modo de pensar e agir” (Salovey, 1990).
Azevedo teve o cuidado de apresentar, a partir daquela definição, um estudo evolutivo e cuidado sobre a evolução daquela perspectiva sob o ponto de vista de diversos investigadores acabando por formulou a sua própria definição onde afirma que a inteligência emocional é a capacidade de identificar as emoções (em si e nos outros), gerá-las e geri-las em prol da qualidade de vida reflectindo-se consequentemente, nas relações intra e inter pessoais” (2002:36).
Quanto à literacia emocional, pelo que entendi, foi o produto do estabelecimento de uma relação entre o que Eric Berne (psiquiatra) estudava relativamente às relações humanas e os conteúdos das suas interacções (tendo dado origem a uma técnica de análise que ficou conhecida como “Análise Transaccional”) e o estudo desenvolvido por Claude Steiner (seu discípulo) relativamente àquelas relações e respectivos conteúdos com as emoções, com o mundo dos sentimentos, que até então não constituíam significativo objecto de estudo. Segundo Steiner, a "literacia emocional compõe-se de três capacidades: a capacidade de compreender as suas emoções, a capacidade de escutar os outros e sentir a empatia com as suas emoções e a capacidade de expressar as emoções de um modo produtivo” (200:25).
Quanto à primeira é importante referir que se trata, em certa medida, à luz dos conhecimentos que hoje veiculam no campo das ciências em geral, como uma expressão redundante, afinal a inteligência é só uma pois os esquemas cognitivos estabelecem-se segundo relações que não dissociam os conhecimentos das emoções que lhe estão inerentes. Esta perspectiva apenas veio garantir a novidade da “valorização dos aspectos emocionais da inteligência” (Azevedo,2002). No entanto, qualquer uma das expressões ou conceitos, se assim podem ser chamados, contribuíram para o reconhecimento das emoções e dos sentimentos como factores importantes no domínio do desenvolvimento global do indivíduo, das sociedades onde se encontram e inevitavelmente no desenvolvimento da cultura ou culturas.
A importância destes estudos no campo da pedagogia concorre, em larga medida, para a compreensão da urgência de desenvolver currículos flexíveis, adaptáveis, que aceitem a individualidade como requisito essencial no desenvolvimento de indivíduos capazes de agir em conformidade com a diversidade. Diversidade essa que se manifesta inevitavelmente: no conjunto da turma, em particular, no ambiente escolar, em geral e que integram seres particulares com percursos próprios, com experiências e realidades de vida diversa.

Referências bibliográficas

AZEVEDO, Edite (2002) "A Escola Precisa de Inteligência Emocional?", Cadernos de Criatividade 4, 21-37.

ESTEYNER, Claude, PERRY, Paul (2000) "Literacia Emocional", in S. Claude (ed) Educação Emocional: Literacia Emocional ou a Arte de ler Emoções, Cascais: Pergaminho



3 comentários:

AnaOliveira disse...

Estou completamente de acordo contigo, Isabel. Penso que são essas mesmas competências, de âmbito emocional, que nos fazem ter o sentimento de pertença a determinada cultura... embora a diversidade nos vá afastando do tradicional, existe dentro de nós uma ligação afectiva com a história, a cultura popular, etc., que serviu de base à nossa aprendizagem de Ser... Um dos aspectos positivos da diversidade é precisamente o fascínio pelo conhecimento e experimentação da diferença... do outro...

Esta abertura vai gerar mudança de atitudes, numa perspectiva não etnocêntrica, mas reconhecendo sempre a nossa identidade, que é maioritariamente identificável pelo visível...

Contudo, se reflectirmos, é o invisível que nos permite identificar com os pressupostos do visível... e por outro lado, foi o visível com que convivemos durante toda a vida, que serviu de base à construção do nosso invisível...

Eu penso que as referências históricas, sociais, afectivas de cada indivíduo são fundamentais, o que não significa que ele não possa e não deva identificar-se, também, com outras... Pelo contrário, tanto melhor será para cada um de nós ter o máximo de experiências interculturais e "confrontar" as nossas formas de estar com outras diferentes...

Margarida disse...

Concordando com ambas as comunicações, reforço só um ponto. Só é culto quem souber não somente estruturar o seu próprio saber, mas que se conhecer. Antes de conhecermos o outro devemos conhecer-nos a nós. E a parte mais difícil não será certamente o reconhecer o "visível" (por esse andam as pessoas "à pancada" para ver qual é melhor), mas o "invisível", o lado do emocional, da individualidade. Para muitos ter a consciência das suas emoções é algo que não se deve pensar e muito menor expor. Mas nós somos seres que sentem! A compreensão do outro é talvez mais acessível se for vista pelo ponto emocional. Antes de se criticar uma cultura do outro devemos olhá-la com os olhos dos outros. Se compararmos tudo somente com o nosso olhar, com aquilo que somos, não estamos a compreender o outro como uma manifestação autêntica de cultura, mas estaremos a colocá-la num nível inferior (por vezes até estamos a menosprezar a nossa cultura - como quando dizemos que "lá fora é melhor"). A questão não é saber se a CULTURA é melhor ou não que a cultura, se a ARTE é melhor ou não que as artes, se a cultura literária e humanista da erudição clássica é melhor que a cultura técnica e científica. Todas as formas de cultura são válidas. E o que hoje parece ser de fraca cultura é bastante provável que amanhã passe para o campo dos eruditos (veja-se o caso do romance que no séc. XVIII era somente lido pelas mulheres e que por isso mesmo os seus autores utilizavam pseudónimos, e que no séc. XIX passa a ser reconhecido como forma artística pelo grande público; ou então o cinema que nos anos 60 não passava de um produto da industria cultural americana, com a qual um culto não perdia tempo e que hoje em dia já é considerada uma arte - logo, proliferam as críticas cinematográficas). Poderemos pensar que o que é reconhecível como forma de cultura mais elevada é o simplesmente pelo facto de também atrair mais dinheiro. Mas será realmente isso?
Se continuarmos a pressionar o aluno com a sua obrigação de ter as respostas na ponta da língua, dificilmente ele se exporá. Mesmo que as suas respostas estejam correctas, o instinto natural ou cultural será o de ficar quieto no seu lugar. No seu entendimento, é mais fácil que sejam os outros a "testar" o professor, do que ele a se "expor". Digamos que existe uma adaptabilidade a cada situação. Mas o mesmo se passa igualmente com os adultos; em qualquer situação de interrogação preferem contornar as perguntas dando respostas que realmente pouco dizem. Mas se as pessoas sentirem que não serão penalizadas só por darem a sua opinião/reflexão, talvez mais autêntica será a comunicação. A questão realmente é que a comunicação seja fluente e que os seus interlocutores não andem perdidos nos seus discursos. Se nos conhecermos a nós, se nos deixarmos conhecer ao outro, se estivermos abertos a conhecer o outro não será mais "correcta" e "directa" a comunicação?

Schwanitz, Dietrich (1999) "Cultura. Tudo o que é preciso saber" Publicações Dom Quixote

antónio rui disse...

dando continuidade aos comentários da Ana e com a Margarida

...Assim todos somos inteligentes emocionalmente?– a emoção é elemento existente a todos nós, porém uns com apetências a pragmatizar semelhante proeza em circunstancias diversas enquanto que outros nem por isso.
Interfere sempre com a forma de agirmos e interagirmos a nosso favor ou mesmo contra nós.
E isto faz-nos levantar uma questão que tu aqui subtilmente levantas:
Porque é que há professores tão inteligentes que são tão mal sucedidos?