terça-feira, novembro 01, 2005

Relações harmónicas e desarmónicas.

  • Reflexão

    Após a discussão entre todos os membros do grupo (Alexandra, Abel, Isabel e Liseta), chegamos à conclusão de que o “choque de culturas” e a habilidade de conviver e compreender os outros estariam facilitadas por uma série de aspectos que passamos a expor:

    - A importância da Língua - Indispensável na comunicação e na compreensão do outro e de si. A necessidade do seu domínio para favorecer as relações interpessoais e materiais.

    - O conhecimento das diferenças entre as várias culturas ou subculturas, a aceitação e valorização de si e do outro como identidade original. É importante nesta “aldeia global” compreender a existência de culturas diferentes e aceitá-las.
    “Ignorar quem é diferente da maioria conduz à discriminação” (Leite, 1997).

    Pois para haver uma sociedade multicultural, as relações devem ser beneficiadas por uma abertura assumida de mentalidades que se inicia desde a infância. Este ponto remete-nos para os domínios da escola, educação e cultura, que tanto para nós como para Leite são interactivos e influenciáveis.

    - As relações de poder – podem prejudicar a harmonia das relações se não houver uma interiorização das diferenças como base relacional.
    “O currículo implica relações de poder (…) transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais” (Moreira e Silva, 1995, p.7).

    Consideramos essencial que o currículo seja construído de acordo com as políticas multiculturais e que este facilite uma pedagogia diferenciada e não um tratamento ocasional onde são acentuados os estereótipos, os sentimentos de superioridade e de estranheza, próprios de uma cultura dominante e cega em relação às culturas das minorias.
    Neste sentido, todas as instituições (publicas e privadas), associações e famílias devem trabalhar para a redução do preconceito e dando ênfase à interacção e intercambio entre culturas e subculturas.

    Como apoio ás nossas reflexões, incluímos o relato pessoal da colega e membro deste grupo, Isabel Domingues, onde são demonstradas as dificuldades de alguém que chega a um novo País.


    Há precisamente 21 anos, os meus pais, cidadãos portugueses, emigrados na Venezuela, decidiram voltar à pátria mãe.
    Tinham consigo quatro filhos pequenos com idades entre os 11 anos e os 18 meses.
    Eu tinha 10 anos de idade e de convivência com a cultura Venezuelana.
    Sentia, respirava, saboreava (enfim!), vivia todo o ambiente daquele país: o clima, a música, a história, a língua, as tradições, os odores, as paisagens, a leveza dos rostos das gentes,... . Foi lá que iniciei a minha formação: primeiro na rua com os meus amigos de bairro e depois na escola. Durante esse tempo sorvi os primeiros tragos do "pleno sangue" que fervia num povo que tanto ama e exalta as suas raízes.No dia em que o avião aterrou em solo português, senti o ambiente diferente. Chegados em pleno Verão (Agosto), o ar pareceu-me mais pesado, estava um dia fresco.Na zona onde finalmente passei a residir senti-me estranha. No ar sentia-se um carregado odor de lenha queimada e terra mexida. As pessoas pareciam exibir semblantes carregados de frieza. Sentia-lhes o olhar cinzento, pouco vivo. A televisão apenas transmitia dois canais que iniciavam a sua emissão ao fim da tarde. E que desenhos animados tão estranhos! E que programas esquisitos, com letras inscritas nas imagens enquanto estas passavam! Via a televisão desconsolada. E o leque de escolha de programas era tão exíguo!
    Demorei semanas até começar a comunicar minimamente com as pessoas que me interpelavam. Demorei meses a entender como pronunciar o som "lhe" e outros tantos a entender o som nasalado do "ão", do "ãe" e a distinguir tantos mais casos da língua portuguesa, inclusive a acentuação! Senti-me só durante muito tempo, mesmo depois de começar a frequentar a escola (a bem dizer, recusei durante algum tempo a mudança!).Enquanto não apreendi o básico da língua quase me foi impossível entender o "mundo" de situações que Portugal me oferecia. Tudo era novo e precisava de explicações para entender. Não bastava perguntar aos meus familiares que podiam facilmente fornecer-me essa explicação na minha primeira língua.
    Era necessário viver cada novidade no seu contexto espacial, temporal e linguístico para interiorizá-la e torná-la parte de mim.
    O conhecimento da língua foi decisivo para a minha gradual integração neste que passou a ser o meu segundo, e não menos querido, país.
    No entanto, só o facto de ter conseguido aceitar sorver a cultura portuguesa sem a entender como uma invasora daquela que era a minha primeira, é que me possibilitou o estabelecer padrões de comunicação cada vez mais completos e enriquecedores.

Isabel Domingues

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