quinta-feira, novembro 10, 2005

Temos uma cultura ou sub-culturas?

A tentativa de definir uma cultura pressupõe que exista uma identidade específica de um grupo de pessoas, e que se manifesta através das manifestações artísticas, da linguagem, da gastronomia, dos hábitos de vida, da localização geográfica e etc. Esta identidade é formada por uma acumulação de diferentes realidades que ao ligarem-se entre si, formam uma cultura. Trata-se de um trabalhar de uma diversidade cultural e social. A tradição cultural não é rígida. Esta é transformável, já que pressupõe que seja construída com a máxima de melhoria das condições de vida.
A cultura é um “prato” no qual estamos a acrescentar cada vez mais ingredientes (criados ora por “nós”, ora pelos “outros”), ingredientes que por vezes aniquilam o sabor dos anteriores e que por outras evidenciam outros ingredientes. Não é necessário, a meu ver, um corte radical com o “outro” para podermos criar uma cultura única e diferenciável das outras. Temos uma cultura (ou sub-culturas?) que não é fechada, que permite que entrem informações do exterior (quer seja através dos meios de comunicação, ou por exemplo pelos emigrantes e imigrantes) e que é através desta recolha de dados que forma as suas características. Mas como definir uma cultura portuguesa, se ela abrange sub-culturas tão diferentes como a do Minho e a do Alentejo, por exemplo? Até as origens das pessoas são diferentes entre o Norte (celtas e germanos) e o Sul (mediterrâneos e berberes), daí que as suas manifestações também sejam diferentes.
Claro que temos manifestações culturais que à primeira vista são “nossas”; mas a origem destas não é somente devida ao local geográfico, ou às vivências da época (religião, política, …), mas é formada também por aquilo que nos deram ou fomos buscar (por ex.: a língua portuguesa existe porque deriva do latim). A partir de dados específicos e das nossas vivências criamos a cultura nacional. Ou será que estamos a falar de “produtos regionais” confundidos com características de um povo? Será que isto acontece com todas as culturas?
Se existe uma barreira (religiosa, psicológica, política e etc.) à abertura da mente, logo nem todas as realidades são conhecidas; então como formar um pensamento lógico baseado na realidade? Poderei abordar a questão através de um simples exemplo: quando se pergunta a alguém que nunca tenha provado algas se gosta destas na comida, a pessoa, como que ofendida, responde muitas vezes com um “Não” despido de qualquer tipo de explicações. Se basearmos os nossos juízos de valor em suposições, então não estamos a agir de modo racional e crítico, mas a reagir de modo instintivo.
Se pensarmos no caso da comunidade Amish, que vive nos EUA e no Canadá (surge no séc. XVI na Suiça e é quase extinta por causa das perseguições religiosas) e que se fecha do resto do mundo, onde a crença não permite qualquer tipo de evolução tecnológica, científica (não têm automóveis, nem electricidade, nem gasolina, nem telefones) e mental do indivíduo (este só pode ter escolaridade no máximo até ao 8º ano, visto que uma educação para além desta leva a que o indivíduo questione as convicções religiosas, que viole a sua moralidade e principalmente que passe a desejar o afastamento do estilo de vida simples dos Amish), onde as pessoas usam um tipo de vestimenta específico e estagnado no tempo (séc. XIX), será que esta comunidade sobreviverá? Por muito fechada que se encontre esta comunidade, esta faz negócios com o exterior, tal como comprova o seu website. Quanto tempo durará este encerramento ao exterior? Não será inevitável que as mudanças aconteçam? Mesmo que estivéssemos a falar de uma tribo de índios da Amazónia, por muito breves que sejam os seus contactos com os “outros”, após um tempo, passamos a vê-los vestidos com as T-shirts deixadas na última visita dos “outros”.

Sugiro uma visita ao texto “Os elementos fundamentais da cultura portuguesa” de Jorge Dias para a preparação da aula, bem como o seguinte blog onde podemos encontrar para alem de uma descrição do colóquio que se realizou em 1992, mencionado pelo Professor Varela de Freitas, uma bibliografia bastante abrangente do assunto.

Sobre o estilo de vida a comunidade Amish têm à escolha estes dois links: http://holycrosslivonia.org/amish/origin.htm e www.amish.net

3 comentários:

MadalenaDuarte disse...

Temos não só sub-culturas, mas também "sobre-culturas" uma vez que estamos afectos a uma Península e a um Continente que agora se tornou Comunidade (UE)com políticas e leis comuns a todos os países aderentes.
Penso que haverá sempre (?)sub-culturas mas eu acredito que a Cultura Global está a aumentar a passos Gigantescos graças ao avanço tecnológico e científico (veja-se o ex. dos satélites, internet, e até mísseis de longo alcance - meios adquiridos por países ditos "culturalmente fechados").
Tal como o currículo, a cultura
deve ser aberta (ao progresso - entenda-se!)
Quanto ao interessante link relacionado com os "Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa" por Jorge Dias,há ... afinal..., uma cultura inerente a "um povo paradoxal e difícil de governar, cujos seus defeitos podem ser as suas virtudes e estas, os seus defeitos, conforme a égide do momento".

anacarreira disse...

Margarida, a existência de uma sub-cultura ou de uma cultura, é indissociável da dificuldade em definir identidade cultural. De facto, somos um “melting-pot” cultural, onde por vezes o confronto e a segregação nascem do desconhecimento e medo do outro.
(Lendo o comentário de Madalena),
Será que temos medo de não resistir à Cultura Global?
Creio que a Globalização apenas veio enfatizar a noção de identidade cultural, mostrando que cada cultura é uma riqueza que deve ser preservada, mesmo que, para o outro, seja “difícil” de aceitar.

anacarreira disse...
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