quarta-feira, dezembro 14, 2005

"Tornar Visível o Quotidiano"

“A actividade das escolas não se costuma submeter a uma avaliação sistemática e rigorosa. As escolas, simplesmente, funcionam. Cada ano, cada dia, repetem-se as mesmas rotinas sem sabermos muito bem porquê e para quê. A avaliação tem lugar nelas próprias (não sobre elas) para comprovar se os alunos aprenderam o que se lhes pretendeu ensinar.
A escola é uma caixa negra na qual os alunos entram com um determinado saber (que muitas vezes desconhecemos) e da qual saem com outra bagagem cultural. (…) Esta caixa negra não está suspensa no ar, mas sim enquadrada num amplo contexto sócio/económico/político e num contexto próximo, nos quais representa um papel. (...) A escola cumpre uma missão social, independentemente do que cada indivíduo consegue nela (…).
Limitar a avaliação de uma escola à preocupação com os resultados académicos dos alunos leva-nos a uma simplificação considerável. Se os alunos notáveis, se os estudantes exemplares aprenderam na escola a ser opressores, a ser pouco solidários, esta deveria preocupar-se por lhes ter facilitado tantas armas… As escolas desempenham na sociedade uma tarefa cuja avaliação não deve ser reduzida ao simples cálculo de aprovações e reprovações.
(…) Uma escola que tenha como objectivo fundamental a transmissão de um corpo de conhecimentos através de uma concepção imobilista do curriculum poderá aperfeiçoar a sua actividade intrínseca através da avaliação sumativa, que estudará como se pode melhorar a forma de conseguirmos o proposto. Porém, a avaliação formativa, que deverá ser realizada (também) por avaliadores externos, poderá valorizar negativamente o trabalho realizado pela escola. Tanto mais negativamente quanto melhor tenha sido realizado.
(…) Suponhamos que definimos, de forma simplista, o fracasso escolar pelo número de reprovações de uma escola. Paralelamente, o sucesso poder-se-á comprovar pelo número de alunos aprovados. (…) Do ponto de vista do próprio facto de valorização, é discutível que a chave do fracasso escolar possa circunscrever-se ao número de reprovações (há “aprovações” que são resultado de uma avaliação injusta ou fraudulenta, há “aprovações” que supuseram um esforço desproporcionalmente elevado, há alunos que passam, mas que não conseguiram aprender nada de útil, valioso ou importante).
(…) O modo de aprender está condicionado pelo tipo de provas que se realizam para comprovar o resultado das aprendizagens. É possível que a aprendizagem realizada para superar uns testes de memorização favoreça a repetição face à compreensão, o descobrimento e a procura. Também deveríamos considerar os efeitos colaterais, não desejados e, por vezes, não observáveis (…) em alguns alunos que fogem da aprendizagem, rejeitam o estudo, refugiam-se nos mínimos, recorrem às cábulas para conseguirem um bom resultado.
Os alunos aprenderam, no estabelecimento escolar, muitas matérias que não estavam incluídas no curriculum explícito (…) as relações existentes, os níveis de participação, o estabelecimento das normas, o clima imperante, a ética da autoridade, poderão ter sido mais importantes para os alunos do que os resultados académicos.”

Guerra, M.A.S. (2003, p.11). Tornar Visível o Quotidiano – Teoria e Prática de Avaliação Qualitativa das Escolas. Porto: Edições ASA.

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