sexta-feira, janeiro 06, 2006

A propósito da Educação Artística


"É Possível Ter Capitais da Cultura Sem Educação Artística?

A entrevista à secretária de Estado da Educação, dra. Ana Benavente, publicada no jornal de 27 de Dezembro de 1998 merece algumas considerações.
Independentemente das opções que o Ministério da Educação está a tomar, refiro-me concretamente ao Projecto de Gestão Curricular Flexível. Gostaria de deixar aqui expressa a minha indignação face à atitude da secretária de Estado relativamente à forma como considera a Área das Expressões no contexto curricular ("de segundo plano" e uma "disciplina fraca", como tal não fundamental para a educação básica das crianças e dos jovens).
Efectivamente a educação artística está a perder terreno, essencialmente por causa da aparente falta de habilidade para defender a sua posição. Necessita-se uma maior consciencialização e "habilidade" para defender as suas posições. Veja-se o caso da disciplina de Francês, que apesar de estar em extinção neste país (comprovável pelo número de alunos que a frequentam) joga forte com os "lobbies", inclusive políticos, já que as relações luso-francesas assim o exigem...
Às portas do século XXI, só um mentecapto não reconhece explicitamente que todas as formas de conhecimento são necessárias e imprescindíveis ao desenvolvimento da crianças jovens. Se tal ideia existe nas mentes de alguns "professores", ela não poderá nunca de um responsável da educação transparecer para aconchegar e justificar qualquer proposta de alteração que se faça.
Sem querer estar aqui a justificar e a clarificar a função da componente artística nos currículos (porque isso foi feito há cem anos), gostaria de deixar algumas questões em aberto.
1. Será que é possível criar indivíduos divergentes, tolerantes e de espírito aberto sem educação artística e estética? 2. Será que é possível criar uma sociedade equilibrada num país que pretende ignorar uma formação para a era da imagem? 3. Será que é possível criar Expos e ter Capitais da Cultura sem educação artística? 4. Será que o Ministério da Educação tem uma visão estratégica para o que é leccionado nas escolas? 5. Sem querer privilegiar a função económica à função socializadora da escola, será possível hoje ter indústria sem ter "design"? Será que devemos ter mais-valias a acrescentar, por exemplo, nas indústrias do mobiliário, dos têxteis, ou simplesmente criar empresas de mão-de-obra barata com operários licenciados em francês e a querer competir com o Terceiro Mundo? Não será que o que falta na nossa indústria é precisamente inovação, criatividade, "design"? E estará o Ministério da Educação satisfeito com a qualidade visual do nosso país?
Para terminar, noto que cabe ao sistema educativo criar condições para o desenvolvimento do homem de amanhã e prepará-lo para exercer uma função num quadro social em que se insira. Para isso, cabe às estruturas educativas adaptarem correctamente o ensino às necessidades sociais e não se subjugarem aos interesses de grupos manifestos numa qualquer mecânica de gabinete, encapotando aquilo que poderia ser uma alternativa ao estado de coisas numa falsa democratização de gestão do currículo em cada escola."


. Freitas, Lopes. É Possível Ter Capitais da Cultura sem Educação Artística? "Cartas ao Director" no Jornal Público (4 de Janeiro de 1999). Retirado em 6 de Janeiro de 2005, de http://sepia.no.sapo.pt/forum.html#capitais

3 comentários:

Delfim Peixoto disse...

Bem Ana, acho que essa entrevista já terá sido dada há já alguns anos.No entanto acho pertinente esta chamada de atenção. As opções do 3.º Ciclo, Dança, Teatro, Música não estã aser implementadas e em muitas escolas são os próprios directores de turma que " desviam " os alunos para outras áreas. Ninguém pode negar. Já tive 3.º Ciclo e de repente "plim"... não há música para ninguém... quando os alunos , na sua maioria teriam optado por esta disciplina. Agora falta saber: é o Ministério que trava ? Acho que não. Fica a pergunta: então quem não implementa esta opção?
Eu fiz um post no meu Blog que se refere exactamente a esta problemática (http://somesilencio.blogspot.com.

Isabel Salgado disse...

A educação artística está em crise neste país, e parece-me reflectir a maneira de estar que domina os nossos olhares. Existem barreiras na linguagem, na expressão e na compreensão mas não será, certamente, o domínio do Francês que irá produzir um diálogo maior, e novas perspectivas de avanço entre os portugueses.
Se as expressões artísticas contribuem históricamente para a cultura de um local que possui determinadas características sócio-económicas então, pergunto eu, tal não deveria ser uma prioridade?

AnaOliveira disse...

Embora antiga, esta entrevista revela preocupações actuais e intemporais... não só relativamente às expressões artísticas e à sua (des)valorização no processo educativo, como à gestão do currículo pelas escolas...

Quanto à gestão curricular tem que partir de cada um de nós enquanto educadores/professores... e voltamos novamente a tudo o que temos vindo a discutir nas aulas e no blog...

A propósito cito Best (1996, p. 33), pois apoia a desmistificação do papel das expressões/arte em educação. "Necessitamos de uma revolução na filosofia das artes, em educação. Podemos argumentar que a experiência artística é tão completamente racional e envolve tão completamente o conhecimento e a compreensão como qualquer disciplina no currículo, incluindo as denominadas áreas centrais: matemáticas e ciências".


Isabel, estou de acordo contigo relativamente ao valor das expressões... quanto a serem prioridade, penso que todas as áreas devem ser prioritárias... dependendo a sua gestão e "aplicação" ou desenvolvimento, do grupo (individual e grupal) e contexto a que se destina a acção. Quanto mais variado e rico for o leque de experiências que as crianças vivenciam maior será a optimização das suas competências globais (pessoais e sociais)...

Best, David (1996). A Racionalidade do Sentimento. Porto: Edições ASA.