terça-feira, outubro 18, 2005

Que cultura queremos na escola?

" A escola não transmite toda a cultura considerada útil, mas apenas a cultura considerada digna e que assim acabará por vir a ser considerada a única socialmente válida ", Formosinho ( 1983, p. 3 ).

Destas palavras poderemos depreender que é a escola que transmite cultura ou a sociedade que dita a cultura que a escola deve transmitir?
A escola poderá ser inovadora na criação de novas culturas, ou ir beber de outras o que de melhor elas oferecem?
A sociedade estará realmente interessada em saber ou desenvolver qualquer tipo de cultura nas escolas?

O " poder de impor ( e até de inculcar ) instrumentos de conhecimento e de representação da realidade social ( taxinomias ) , que são arbitrários mas não reconhecidos como tal "são, definidos por Bourdieu ( 1982, p. 104) como " violência simbólica".

Reflectindo nestes princípios será a escola realmente uma fonte ou um receptáculo da cultura que envolve a sociedade?
Estarão, hoje, os intervenientes escolares abertos a este " boomerang"?



11 comentários:

Margarida disse...

Concordo contigo, Delfim, ao dizeres que deste ponto de vista o papel da escola parece um pouco redutor (limitado) e representativo de uma violência simbólica. A frase não deixa a possibilidade de evolução do conceito de cultura, por falar da cultura "útil". Mesmo o facto do que é "único" e "socialmente válido", é descriminador de qualquer outro tipo de cultura; é ser um pouco arrogante e pensar que a sua cultura é a única válida (e passando as outras a serem consideras como bárbaras). Não existem modelos perfeitos, mas corpos qe se moldam em função das necessidades.
E a escola, não é o único organismo que transmite cultura; poderá ser o segundo na longa lista, se pensarmos que o primeiro contacto com a cultura é dado pelos pais.

Varela de Freitas disse...

O conceito de "transmissão", se aplicado à escola, é altamente discutível: pedagogicamente errado e socialmente criticável. Isso não quer dizer que não exista quem pense que deva ser assim, e não só em termos de cultura. Por outro lado, que se deve entender por cultura "útil"? E "digna"? Claro que a escola deve ter em atenção que é uma instituição educativa, mas isso não a pode impedir de conviver com todas as formas culturais sob pena de não ser a "vida" de que falava Dewey, tão a propósito citado (se não me engano, pelo Rui).

antónio rui disse...

Infelizmente várias instituições escolares, começam no momento em que se entra na porta principal e onde estão presentes funcionários alunos professores e as próprias condições quer físicas, quer educacionais promovidas pela interacção deste interagentes. Mas estará o conhecimento confinado a este grupo restritíssimo na permuta e de mostra do caminho ao conhecimento?
Lógico que com estes agentes culturais a escola terá que ser obrigatoriamente um receptáculo e catapulta de conhecimento e promoção à pesquisa, e assim respondendo à pergunta do Delfim, envolve certamente uma sociedade se não mesmo sociedades distintas.
Porém, e ainda bem, pois estaríamos muito mal se a escola fosse o único projecto/projector ao desenvolvimento.
O conhecimento é um milagre que acontece a todo o momento nas pequenas e nas grandes coisas.

AntonioPacheco disse...

O acto educacional não começa nem acaba na escola e não está de forma alguma confinado e este espaço ou agente. A escola é apenas um parceiro neste acto educativo que é para toda a vida. A escola encontra-se em todo o lado: é a própria cidade, vila ou aldeia...
(Já agora, Sr. Professor, quem mencionou Dewey, foi o António Pacheco)

antónio rui disse...

falei em instituiçao escolar- e nao escola - atenção -

AntonioPacheco disse...

Percebi António Rui. No entanto entendo que a «vida» que fala Dewey, ultrapassa a esfera das instituições escolares. E já agora o que são instituições escolares? Conjunto de escolas?!

antónio rui disse...

Não são isso mesmo?
Não li Dewey, no entanto referi precisamente essa perspectiva / postura isso no meu comentário a cima colocado.

antónio rui disse...

ja agora um remate - a palavra "instituição" neste âmbito nada me agrada.

AntonioPacheco disse...

A mim também não...

filomena disse...

Mas que interessante diálogo aqui está a ser gerado.Vou também aqui expressar a minha opinião.
Penso pertinente começar pelas palavras do Dr. João Formosinho ao considerar que a escola não transmite toda a cultura considerada útil, mas apenas a considerada digna. Seria bom que a escola tivesse a capacidade para fazer atingir a experiência mas não, ela apenas nos oferece condições para certas experiências.
Quanto ao ser digna a cultura que é "transmitida" (coloco entre áspas por concordar com o professor Varela)penso dever-se ao facto de (não só mas também)ter de salvaguardar a sua cultura própria, a sua vida e a sua identidade.
Delfim tenho realmente algumas dúvidas acerca do interesse por parte da sociedade em desenvolver qualquer tipo de cultura nas escolas, pelo facto de lhe ser exigido um determinado nível de competência cultural que penso......
A escola anda de certa forma ao sabor da sociedade, que se manifesta por vezes como algo poderoso e muito exigente, mas sem capacidade para distinguir o útil do desnecessário. Por vezes manifesta-se de forma despreocupada e desinteressada relativamente ao outros tipos de cultura, talvez devido ao facto que já referi anteriormente,da falta de competência cultural.
Penso que os intervenientes escolares abertos a este "boomerang", não são o desejável. Questionas a escola como fonte de cultura que envolve a sociedade. Sim isso está sempre presente em todos nós, mas não podemos esquecer que a cultura não pode, não deve, nem é apenas da responsabilidade da escola, nem é somente em função da sociedade que determinada cultura é desenvolvida na escola.
Concordo com a Margarida, quando refere que o conceito de cultura sendo "único" e "socialmente válido" descrimina a todos os níveis, qualquer tipo de cultura.
Quando o Professor Varela salienta o facto da escola não poder ser impedida de conviver com outras formas culturais, tem muita lógica, até porque de outra forma estas estavam a ser consideradas concorrentes e irreconsiliáveis, na busca da transformação na qualidade de vida dos cidadãos.
Gostei do diálogo entre o António Rui e o António Pacheco.

AnaOliveira disse...

De uma forma metafórica, a escola não pode deixar de ser simultaneamente "fonte" e "receptáculo" da cultura que envolve a sociedade. Isto, se a encararmos como parte integrante do processo dinâmico inerente à cultura...
Penso que é aí que reside a competência cultural da escola. O "receptáculo" no sentido do acolhimento das culturas ou manifestações culturais que chegam até ela (não de forma passiva, mas resultado de estudos e pesquisas e através das crianças e famílias que chegam à escola) e a "fonte" no sentido de envolver toda a comunidade educativa, promovendo uma educação geradora de igualdade de oportunidades, pois como refere Roberto Carneiro in DELORS (1996, p.10) "o aprender a ser só tem significado na relação com o outro diferente e na descoberta da sua inesgotável riqueza pessoal". (...) Assim, "perante tanta indeterminação e até sintomatologia de crise, a Educação pode fazer a diferença" (...) "na edificação de uma Sociedade Educativa aberta e sem fronteiras".

UNESCO (1996) Educação um Tesouro a Descobrir. Porto: Edições ASA.