segunda-feira, outubro 24, 2005

Cultura é desenvolvimento

Uma sociedade só é desenvolvida se for suficientemente culta. Não é possível haver desenvolvimento social, económico, tecnológico e cultural se a sociedade for passiva, fechada no seu umbigo, incapaz de se abrir à diversidade, respeitar a multiculturalidade, a diferença e saber interagir com elas.
O poder político (e ainda em resposta ao professor Varela de Freitas) tem sem dúvida culpa pela situação passiva/retrógada em que Portugal se encontra. O poder político central e, especialmente, o regional/local: os Municípios, Câmaras Municipais e Autarquias devem assumir, democraticamente, um papel relevante na implementação de políticas educativas próprias capazes de promover o investimento, a criatividade, a cultura, o desenvolvimento local/regional e consequentemente o desenvolvimento nacional. Todas as manifestações culturais oferecidas por este espaço educativo devem ser aproveitadas pela escola no sentido de enriquecer o currículo, promover a cultura e assegurar a competência cultural, ou seja, proporcionar desenvolvimento.
A escola é um espaço aberto e o seu verdadeiro currículo ultrapassa a simples esfera do edifício, do plano de estudos, do conjunto de disciplinas, do meio social, da família e, comporta em si, políticas educativas regionais, municipais e locais. A escola encontra-se enquadrada num sistema educativo - ligado aos actores locais: instituições, associações, autarquias, municípios - que deve dar resposta; é uma parceira deste sistema e o seu currículo é o projecto de desenvolvimento desta realidade.
As parcerias educacionais desempenham, portanto, um papel significativo na acção educativa, devem assumir protagonismo na elaboração do Projecto Educativo da Escola, potenciam a exploração de manifestações culturais relevantes, desenvolvem o currículo e a competência cultural.
Pena é que o poder político invista, muitas vezes, em iniciativas culturais de carácter duvidoso que pouco ou nada trazem de vantajoso para a escola ou para a educação em geral.

8 comentários:

Delfim Peixoto disse...

António, acho que ( na minha modesta opinião ) os textos que apresentas são pertinentes e penso que deveras importantes para nos levarem ameditar um pouco sobre a questão. De facto, " Cultura é Desenvolvimento", e ainda bem. Deixa-me só colocar uma questão que acho pertinente: Há países onde a Cultura foi´, é, e será considerada como um contra-Poder; vejamos o que acntece na Índia, nos países Orientais , onde se confunde um pouco o " floclore" como Cultura. E porquê? Quanto mais sabio o Povo, mais exigente ele fica...
será que poderemos fazer um paralelismo com a situação europeia , ocidental e particularmente, a portuguesa? Quero acreditar que não, mas venho sentindo um certo laxismo por parte de quem deveria revitalizar os eventos culturais, apesar de felizmente termos ainda quem contraponha esta ideia e lute contra ela.
Na Educação poderemos considerar que a nova orgânica das escolas e dos horários dos alunos e professores favorece esse desenvolvimento cultural? Acho que não! Este início de ano lectivo veio tirar o Tempo dos Clubes de arte, de Música, de Desporto, de Ida à Biblioteca, porque os alunos não têm esse tempo. ( Nem feriados podem ter ).
Pelo que nós conhecemos os alunos estão mais cansados, menos abertos a actividades culturais , e não acredito que seja por culpa dos docentes.
A nível social e político não acredito que quando se desmembra a Cultura da Educação, com dois ministérios diferentes, se esteja realmente a desenvolver esta teoria. Como diz o Professor Varela de Freitas, a Escola é Cultural senão não seria escola... Pena os governantes não pensarem assim(?).

Delfim Peixoto disse...

António, acho que ( na minha modesta opinião ) os textos que apresentas são pertinentes e penso que deveras importantes para nos levarem ameditar um pouco sobre a questão. De facto, " Cultura é Desenvolvimento", e ainda bem. Deixa-me só colocar uma questão que acho pertinente: Há países onde a Cultura foi´, é, e será considerada como um contra-Poder; vejamos o que acntece na Índia, nos países Orientais , onde se confunde um pouco o " floclore" como Cultura. E porquê? Quanto mais sabio o Povo, mais exigente ele fica...
será que poderemos fazer um paralelismo com a situação europeia , ocidental e particularmente, a portuguesa? Quero acreditar que não, mas venho sentindo um certo laxismo por parte de quem deveria revitalizar os eventos culturais, apesar de felizmente termos ainda quem contraponha esta ideia e lute contra ela.
Na Educação poderemos considerar que a nova orgânica das escolas e dos horários dos alunos e professores favorece esse desenvolvimento cultural? Acho que não! Este início de ano lectivo veio tirar o Tempo dos Clubes de arte, de Música, de Desporto, de Ida à Biblioteca, porque os alunos não têm esse tempo. ( Nem feriados podem ter ).
Pelo que nós conhecemos os alunos estão mais cansados, menos abertos a actividades culturais , e não acredito que seja por culpa dos docentes.
A nível social e político não acredito que quando se desmembra a Cultura da Educação, com dois ministérios diferentes, se esteja realmente a desenvolver esta teoria. Como diz o Professor Varela de Freitas, a Escola é Cultural senão não seria escola... Pena os governantes não pensarem assim(?).

Delfim Peixoto disse...

ERRATA:
ameditar = a meditar
floclore = folclore
sabio = mais

AntonioPacheco disse...

Delfim,antes do 25 de Abril de 1974,no Período do Estado Novo, saber incomudava como andar à chuva... bastava saber ler, escrever e contar...era a nossa instrução!

AnaOliveira disse...

Eu fiz um comentário a este post, mas não sei onde "foi parar"... Como é que eu vejo?

AnaOliveira disse...

Foi com tristeza que perdi o meu comentário... mas vou agora tentar refazê-lo!

Assisti, ontem, na Casa da Música, a um espectáculo denominado RAPA.
Confesso que não me documentei antes do espectáculo. O facto de se relacionar com a cultura dos Himalaias foi o suficiente para estimular o meu interesse.

O que eu assisti foi a uma manifestação cultural, do Butão, vivida de uma forma tão genuína e intensa, sem qualquer pretensão de constituir um espectáculo, que a certa altura senti que o espaço e os espectadores não faziam parte do que estava a acontecer, é como se estivéssemos "a mais"...

Os RAPA reproduziram as festividades religiosas, vivendo-as e não como uma representação para um público. Houve pormenores fantásticos que perturbariam qualquer encenador, pois eram tão espontâneos e singulares que, ao olhar mais distraído, levariam a pensar que os "actores" não tinham a noção de estavam num palco, a representar um papel, a ser vistos...

De facto, eles não estavam a representar, eles estavam a viver - E nós também! Através dos odores: incenso, dos tecidos, etc; dos sons: através dos instrumentos musicais, das vozes; do movimento: danças e coreografias; da imagem: indumentárias, figuras religiosas, etc...

Ao chegar a casa foi inevitável a procura de uma contextualização cultural para o que tinha visto. Através de várias fontes recolhi muita informação, que sintetizo a seguir, por considerar que vai ao encontro da discussão gerada em torno do post do António e que nos remete para outras realidades culturais... e, consequentemente, para a questão da multiculturalidade!

Os habitantes do Butão contam-se entre os mais pobres da terra e não valorizam a riqueza, pois ela pode adulterar as tradições culturais. Contudo, não existe pobreza, fome, mendicidade e praticamente criminalidade neste país... Embora exista dinheiro, a maior parte do comércio ocorre através de trocas de géneros - cerca de 95% da população activa do Butão é constituída por camponeses, sendo a maioria budista. Os filhos mais inteligentes das famílias são enviados, em muitos casos, com apenas três anos, para os "dzongs" (mosteiros/conventos) onde se tornam monges. Em muitos aspectos o Butão permanece num registo da Idade Média, mantendo poucos contactos com o mundo exterior. O rei autoriza a entrada a 1500 turistas por ano e a escalada dos Himalaias de dois em dois anos... com várias restrições.

Daqui retiro a timidez, genuinidade e singularidade com que tudo se desenrolou...

Margarida disse...

Para completar a descrição do Butão, temos que considerar que este pequeno país, que representa cerca de 20% de área relativamente a Portugal, e com uma população que ronda os 2 milhões de pessoas, apesar de realmente não ter registos de pobreza, tem os seguintes dados relativos à taxa de alfabetização: 42,2% da população sabe ler e escrever (a partir dos 15 anos), do quais 56,2% são os homens e somente 28,1% são mulheres.
O Butão tem sua economia essencialmente baseada na agricultura, extração florestal e na venda de energia hidroelétrica para a Índia e tem um regime monárquico. A agricultura, essencialmente de subsistência, e a criação animal, são os meios de vida para 90% da população. É uma das menores e menos desenvolvidas economias do mundo. Será que é por isto que se revela deste modo a literácia neste país? Se realmente as pessoas acabam por ficar "amarradas" ao trabalho da terra, poucos estimulos têm em desenvolver os conhecimentos escolares, bastando a compreensão de certas ideias que possam aplicar na sua subsistência/sobrevivência.

Fontes: http://www.rotasdovento.pt/butao.htm e http://www.indexmundi.com/pt/fatos/2001/butao/

IsabelDomingues disse...

Cultura é desenvolvimento. Indiscutivelmente!...
E desenvolvimento é (e gera) cultura.
A necessidade de procurar respostas para problemas do quotidiano constitui o motor para o desenvolvimento. Aquela atitude implica o recurso a conhecimentos disponíveis. Deste ponto de partida resultam esforços que conduzem os “saberes” a novas aquisições, novas relações e possivelmente a soluções (diversas muitas vezes) que satisfazem exigências do quotidiano, mas que não estagnam. O desenvolvimento encontra em cada solução, em cada resposta, outras oportunidades para se expandir e acrescentar conhecimento alargando consequentemente os horizontes da cultura.
A primeira vez que ouvi o professor Varela citar Edward T. Hall a respeito do conceito de cultura, afirmando que - “Cultura é de facto uma prisão, a não ser que se saiba que há uma chave para se sair dela…” - desfilou na minha mente aquela sucessão de pensamentos que já expus e estabeleci, mais imediatamente, a relação desta afirmação com o velho ditado popular que diz que “a necessidade é mãe de todas as obrigações”.
O homem é um ser pensante. E o seu pensamento evolui à medida que as suas necessidades vitais se manifestam.
Creio não errar muito ao afirmar que a cultura e o desenvolvimento dependem efectivamente daquela condição (a necessidade) para continuar o processo de evolução do ser humano.