quarta-feira, novembro 02, 2005

Análise do trabalho dos grupos


Como complemento do tópico da nossa última sessão “A cultura e as suas relações com o mundo; a habilidade de conviver e compreender outras culturas – reflexos no currículo” convidei os oito grupos formados a reflectir sobre o tema e procurar encontrar aspectos que constituíssem factores positivos e negativos potenciadores de “encontros” e “desencontros” entre culturas. Depois, desafiei que esse trabalho, concretizado em menos de uma hora na aula, pudesse ser eventualmente alargado e publicitado no blog, permitindo aí ser objecto de um debate que passaria a presencial quando nos voltássemos a encontrar na sexta-feira. Igualmente prometi um feedback pessoal quando estivessem reunidas todas as contribuições (falta uma, o que não é razão para não publicar este post hoje).

Considero que a melhor maneira de se começar a estudar um tema (seja qual for) é pensar sobre ele. Mesmo que aparentemente nos sintamos mal informados, ou mesmo ignorantes, é útil reflectir – ainda que seja sobre essa mesma ignorância. Mas regra geral “sabemos” sempre mais do que pensamos. Por isso, o exercício que fizeram mostra que foram na verdade referenciados aspectos essenciais, tendo para isso contribuído de modo particular experiências pessoais muito ricas.

Talvez influenciados pelo meu texto introdutório, a compreensão da língua aparece muitas vezes citada. Mas houve uma contribuição muito interessante, da Susana, que a propósito da sua estadia em Moçambique lembrou a distinção que Saussure (veja aqui a sua biografia resumida) fez entre “language” e “parole”, mostrando que uma coisa é falar a mesma língua e outra é o entendimento que se tem de algumas palavras, com significados diferentes (recordem o que vos disse na primeira aula, sobre conceito e termo).

Um factor negativo que aparece claramente identificado é o acentuar de diferenças que decorrem das relações de poder (reais ou imaginadas) mesmo quando inocentemente disfarçadas de boas intenções (a simples designação de “minorias” recorda sempre o mais e o menos, e quase sempre o poderoso e o indefeso). Mas as diferenças não podem e não devem ser escondidas, mas assumidas como elemento distintivo a ser aceite em favor da harmonia do conjunto (o conhecido exemplo, referido por um dos grupos, da salada de frutas, na qual o sabor de cada um dos elementos que a constituem contribui para um mais refinado paladar).

É precisamente nesta quase “quadratura do círculo”, em que avulta a contradição de a diferença dever ser esbatida e ao mesmo tempo assumida, que a escola – entidade responsável globalmente pelo currículo – tem de honrar a sua função. Porque toda a escola deve ser cultural, o planeamento do currículo tem de assentar em pressupostos nos quais a cultura – toda a cultura – prevaleça.

Perante isto, vamos então dar mais alguns passos e estudar como uma pedagogia diferenciada pode ajudar em situações multiculturais. Para além dos textos que forneci, aconselho uma visita ao site da ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas), o que pode fazer “clicando” “clicando” aqui.
Encontrará documentação pertinente produzida pelo extinto Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural (Entreculturas), um organismo criado em 1991 pelo Ministro da Educação Roberto Carneiro e que teve como áreas de actuação:

1 Conhecer e diagnosticar a realidade multicultural nas escolas sobretudo através da Base de Dados Entreculturas, que disponibilizava informação pormenorizada sobre a origem étnico-cultural de todos os alunos dos ensinos básico e secundário, cruzando-a com outros dados relativos ao aproveitamento escolar.

2 Investigar e promover acções de intervenção nas escolas, entre as quais se destaca o desenvolvimento do Projecto de Educação Intercultural, que envolveu 52 escolas. Entre outros aspectos este Projecto proporcionou uma formação de longa duração em educação intercultural a 200 professores.

3 Colaborar na produção e disseminação de linhas de orientação sobre educação intercultural, por exemplo com a edição de publicações – relatos de boas práticas, textos de fundamentação teórica e materiais de apoio à formação.

Em Março de 2004 o Secretariado Entreculturas deixou de estar integrado no Ministério da Educação e foi afecto ao ACIME, com o nome de Gabinete de Educação e Formação.

Portanto, na sexta-feira vamos pensar na escola como entidade altamente responsável face à multiculturalidade.

1 comentário:

AnaOliveira disse...

O ACIME tem tido um papel fundamental no apoio aos emigrantes e às "minorias étnicas"... e também no apoio a Projectos nesse âmbito, como é o caso do Projecto Mus-E na escola de Évora... é curioso que eu ia colocar hoje o site deles no comentário ao post da Bárbara sobre o Escolhas 2ª Geração... juntamente com outros:
www.stop-discrimination.info e www.equal.pt


O ACIME tem uma publicação/boletim informativo mensal com artigos muito interessantes e referências bibliográficas (de publicações suas e de outras editoras) sobre a diversidade cultural, etc., assim como cd's, dvd's e outras formas documentais dirigidos a crianças e adultos...