segunda-feira, novembro 21, 2005

~Pós-Modernismo na Arte, Cultura e Multiculturalidade

Uma vez que a Pós-Modernidade abriu portas à importância de entender a arte como representação de significados cuja interpretação depende mais da compreensão de códigos simbólicos e convenções culturais que circulam nos contextos de origem da obra (do que de aproximações formalistas), como explica Fernando Hernández (2000), Professores de Expressões estão hoje mais atentos à relação entre arte e cultura. Preocupam-se em compreender os objectos estéticos dentro de sistemas simbólicos culturais mais amplos, segundo Geertz (1997), para quem uma teoria da arte é ao mesmo tempo uma teoria da cultura e não um empreendimento autônomo.
O conceito de cultura é complexo. Resulta do interesse de cientistas sociais nos modelos em que os diferentes modos de vida social são construídos a partir das idéias que as pessoas têm sobre si e das práticas que emergem destas idéias (ROSE, 2001). É a produção e a troca de significados entre membros de determinados grupos sociais. Estes significados podem manifestar –se como verdade, como fantasia, ciência ou senso comum. Podem estar embutidos nas conversas do dia-a-dia, nas teorias mais elaboradas dos intelectuais, na arte erudita, na TV ou nos filmes.
Para Laraia (2003, p.67), a cultura determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações: “ a nossa herança cultural desenvolvida através de inúmeras gerações, condicionou-nos sempre a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceites pela maioria da comunidade”. Daí a importância do multiculturalismo crítico, de resistência, que argumenta que a diversidade deve ser afirmada dentro de uma política de crítica e compromisso com a justiça social (MCLAREN, 2000). A educação pela arte nesta perspectiva, pode ser dialética, emancipatória e inclusiva, partindo de uma prática restauradora, transgressora, intercultural e crítica, como um poderoso instrumento para reafirmar a singularidade na diversidade (AZEVEDO, 2003). A Educação como Arte apresenta-se então como um caminho para estimular a consciência cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento da cultura local.
A história da arte, tal como foi escrita e tal como se ensina nas escolas ( expõe-se em museus, apresenta-se em espetáculos cênicos e/ou musicais), mascara sob a lógica da verdade concepções culturais, conforme aprendemos de Gergen (1992,p.167). O mundo ocidental estabeleceu os padrões morais, políticos e intelectuais para o restante do mundo, e isso reflete-se nas artes e no seu ensino. Mas num mundo de perspectivas plurais os padrões tradicionais estão a ser questionados, e outras vozes, antes silenciadas, incorporadas aos discursos dominantes. De onde vemos a necessidade de transformar o ensino da arte como um lugar privilegiado para reorganizar a escola como o grande palco de diálogos entre diferentes culturas, diz Azevedo (2003), para quem a pedagogia da arte dever ter o compromisso – a utopia – com toda produção instituída – reconhecida pela história oficial – e dialeticamente (dialogicamente) contraposta à arte instituinte – elaborada por minorias ressaltando as suas visões de mundo,as suas potencialidades e desafios.
Para pensar a diversidade cultural temos que navegar por uma complexa rede de termos: multiculturalismo, pluriculturalismo e interculturalidade. “Enquanto os termos “multicultural” e “pluricultural” significam a coexistência e mútuo entendimento de diferentes culturas na mesma sociedade, o termo “intercultural” significa a interação entre as diferentes culturas” (BARBOSA, 1998,p.14). Ensina Ana Mae que este deveria ser o objetivo da educação interessada no desenvolvimento cultural, para quem também o acesso aos códigos eruditos da arte para todas as classes sociais é primordial: “As décadas de luta para salvar os oprimidos da ignorância sobre eles próprios ensinaram-nos que uma educação libertária terá sucesso só quando os participantes no processo educacional forem capazes de identificar seu ego cultural e se orgulharem dele” (BARBOSA, 1998,p.15). Esta identificação crítica com o marginalizado, segundo Kincheloe (1997), produz uma suspeita pós-moderna da inclinação do Modernismo por fixar limites e pela sua tendência para subordinar e excluir. A centralidade da cultura na educação artística pós-moderna implica a consideração a um novo campo: os Estudos Culturais.

2 comentários:

AnaOliveira disse...

Delfim,
Ao ler o teu post ocorreu-me a questão com que Elvira Leite termina o prefácio do livro de Rodrigues, Dalila D'Alte (2002, p.7): "olhando o mundo num olhar retrospectivo poderá colocar-se a seguinte interrogação: que linguagem permite ultrapassar as fronteiras geográficas e políticas e minimizar divergências de códigos linguísticos para além das linguagens da expressão artística e afectiva?"


Dalila D'Alte (2002) "A infância da Arte, a arte da infância", Porto: ASA Editores.

IsabelDomingues disse...

dELFIM, precisei de recorrer a algumas leitura para situar e compreender o artigo que publicaste.
O período que sucedeu à segunda grande guerra, representou todo um conjunto de modificações significativas no curso da história da humanidade que concorreram para o estabelecimento das bases, na década de 60, do século XX, da corrente cultural conhecida como o Pós-modernismo.
O período compreendido entre a grande guerra e a década imediatamente seguinte, correspondeu, tal como já se tinha verificado durante os anos trinta do século passado, a uma forte emigração não só de pessoas como de ideias. A guerra motivou a procura de refúgio por parte de intelectuais europeus nos Estados Unidos e outros locais menos expostos aos efeitos daquela. Como consequência, abriram-se portas para o enriquecimento de conhecimentos e à criação de novos estímulos para as diversas culturas que então serviram de abrigo aos europeus (nomeadamente a americana).
A dimensão trágica do conflito concorreu, em larga medida, como elemento unificador de culturas numa tentativa de consciencializar a humanidade da sua fragilidade.
Verificou-se uma alteração na mentalidade (até aqui muito centralizada na cultura europeia) e no panorama mundial, apresentando-se bastante multifacetado.
Todo este contexto fomentou o desenvolvimento de manifestações entusiastas, um pouco por todo o mundo, no que diz respeito à circulação de ideias e conhecimentos, facilitando o alargamento das fronteiras tanto políticas como culturais, promovendo a sucessão acelerada e desorganizada de avanços tecnológicos e manifestações culturais extremamente diversificadas.
O Pós-Modernismo surgiu como uma atitude revisionista e organizativa relativamente à tradição moderna que então vigorava, e uma forte crítica à tendência da uniformização imposta pela sociedade pós industrial e ao desenfreado desenvolvimento tecnológico.Apresentou-se como uma corrente unificadora entre diferentes áreas da cultura.
Com Jean-François Lyotard, (filósofo francês), o Pós-Modernismo lançou as primeiras linhas orientadoras do pensamento. Abriu caminho para a diversidade dos discursos, das teorias e das diferentes formas de acção rejeitando o discurso de “massas”. Cada domínio, o teórico, o estético e o prático, é autónomo, possuindo as suas próprias regras e critérios, no entanto permitem a articulação de conhecimentos na medida em que funcionam como informação complementar das aquisições que se vão processando.
O próprio conceito de cultura encontrou uma nova orientação: o facto de se valorizar a diversidade de discursos implica que essa diversidade abra portas à “coexistência e mútuo entendimento de diferentes culturas na mesma sociedade” assim como “a interacção dessas entre diferentes culturas” que referes no teu artigo (como significados dos termos: "multicultural”, “pluricultural” e “intercultural”, respectivamente)
No âmbito do contexto educativo, este tipo de abordagem de cultura, deveria ser implementada como forma de fomentar uma evolução positiva da convivência entre as diferentes culturas e não de assimilação e de subjugação por parte das culturas minoritárias da cultura numérica e economicamente dominante que se tem vindo a verificar, como forma de estimular a valorização do respeito mútuo pela diferença e defesa da diversidade.
Quando referes que a “centralidade da cultura na educação artística pós-moderna implica a consideração a um novo campo: os Estudos Culturais”, concluo que queiras dizer que, apesar desta pertencer a um domínio comum a todas as expressões deste género de manifestação têm que ser primeiro estudadas segundo a realidade específica em que se desenvolvem para poderem ser compreendidas. Deu-me a sensação que entendes que, actualmente a educação artística carece de contextualização e que corre o perigo de se confundir numa massa de exteriorizações sem identidade própria.
Não poderei concordar inteiramente contigo se, por ventura, é isto o que pretendes dizer:
-Por, um lado compreendo que as expressões artística em contexto escolar (e não só!) conhecem uma interpretação menos correcta por parte de alguns agentes culturais que acabam por veicular confusões incorrendo no erro de proporcionar simples “programas de entretenimento de massas” sem conteúdo artístico significativo e dignificante acabando por fomentar a ideia de que este tipo de manifestação é comum a todas as culturas.
-Por outro, entendo que quando existe por parte do formador responsável uma preocupação real em tentar enriquecer as experiências culturais dos alunos (e até dos públicos, quando as manifestações se verificam nesse domínio) que delas participam, se esforça por sorver a essência das peculiaridades culturais e tenta contextualizá-las e pô-las em contraste com a sua cultura a fim de permitir o acesso a novas e diferentes interpretações.

Bibliografia:

SOUTA, Luís (1997)Multiculturalidade & Educação.Porto: Profedições

SPROCCATI, Sandro(1997)Guia de História da Arte. Lisboa: Editorial Presença (edição original: (1991) Arte. Milan: Arnoldo Mondadori Editore)